O escultor

•11/03/2011 • 1 Comentário

E a chuva de verão, mais uma vez, chega. E as gotas de água violentamente acertam os grandes vidros da janela da sala de estar. E de lá ele observa tudo. E a sua sombra fica nítida no chão de madeira clara cada vez que um raio aparece forte por entre as núvens.

Nas calçadas e nas praças, guarda-chuvas de todas as cores dominam a paisagem quando bate seis horas da tarde e as pessoas, apressadas, voltam para casa correndo. O trânsito pára e as ruas ficam superlotadas até o Sol se pôr. Então as pessoas somem das ruas, os carros andam tranquilamente, mas a chuva permanece a mesma. Um gato pingado aqui, outro acolá, e a Cidade dá seus ultimos suspiros de mais um dia . E sob a luz fraca e amarelada de um abajur alto, ele continua a olhar, mas já é hora de sair.

Sempre elegante, com seu terno preto impecável, sapatos igualmente pretos e uma camisa branca, ele pega as chaves da porta de casa em um pequeno móvel próximo à saída. Desce o elevador, pensativo, mal ligando para os seus refléxos, também pensativos. Ao sair, cumprimenta, simpático, o porteiro da noite e sai.

Ainda sobre o degrau que o separa da calçada e protegido da chuva por uma pequena saliência na fachada que emoldura o portal de entrada para o edifício, ele fica estático, vendo a chuva forte, rigorosamente vertical devido à falta de vento, cair a poucos centímetros de seu rosto. Ouvia atentamente o barulho forte do impacto das gotas grandes com o piso duro da calçada. Ao dar o primeiro passo para dentro fora do abrigo a chuva balbuceou e recuou e a pés enxutos ele atravessou a rua e seguiu seu caminho em diração ao centro da cidade.

As pessoas cabisbaixas em baixo de seus guarda-chuvas mal percebiam sua passagem enquanto ele avançava pelas avenidas largas da cidade, ou pela sua completa preocupação com seus próprios problemas, ou pela pura e simples alienação, ou pelo fato de o breu de suas vestes se misturasse tão bem às sombras em uma quase-noite sem estrelas (que raramente apareciam). Seu terno não chegava a ser totalmente preto, mas de um tom bem próximo de cinza escuro, caprichosamente estampado com linhas verticais bem finas. Seus sapatos, estes sim eram pretos, cuidadosamente engraxados, brilhantes, com um pequeno salto de madeira, que dava toda a elegância para o par de peças. Seus olhos pareciam bastante interessados nos detalhes de cada edifício que passava ao seu lado, como se, de tanto olhar, já conhecesse cada um. De-fato os conhecia sim. Ele é do tipo detalhista.

Olhando com o seu característico cuidado para as fachadas à sua frente, encontra algo que nunca tinha visto antes. Era uma pequena casa de tijolos aparentes, com lindos detalhes em madeira esculpida. Tinham formas de flores das mais variadas, obviamente um trabalho de um habilidoso escultor.

Cansado do suspense gerado pelos detalhes, deu um passo atrás, e logo depois mais um.

No final do segundo passo, ergueu os olhos para ver o todo, pela primeira vez, e viu que não era uma casa, mais sim uma pequena loja. Uma vitrine, de vidro emoldurado pela madeira elegantemente talhada. Sobre a porta, e munido de detalhes que condiziam com o resto, havia uma pequena placa perpendicular à parede, daquelas presas com pequenas correntes a um suporte metálico que a fixava na parede de tijolos (o suporte metálico era igualmente rebuscado).

A loja ainda estava aberta, sua porta iluminada pela luz amarela de uma lâmpada de sódio de um dos postes, então sem exitar, ele entrou na loja e já ouviu um pequeno sino que o entregava. Tantos detalhes novos o intrigavam enquanto ele observava minunciosamente o ambiente mergulhado em penumbra.

O silêncio foi quebrado apenas quando um jovem rapaz saiu de uma porta. Usava roupas simples, de trabalho, e em uma das mão tinha um pequeno cinzel e na outra um objeto que não era possível ser decifrado ainda nem por ele próprio. Ao acender a luz tudo se revelou. Estava cercado por pequenas estatuetas de madeira esculpida e pintada a mão. Haviam estatuetas de pessoas, de lugares, réplicas de prédios da Cidade.

“O que deseja, senhor” – Perguntou o homem?

“Apenas fiquei interessado na riqueza de detalhes! Foi você que os fez? – Pergunta o visitante enquanto passa os olhos por todas as pequenas obras enquanto o jovem acenava afirmativamente com a cabeça.

O visitante estava, como criança, encantado com tantos bonecos de madeira recheados de expressões diferentes. Analisava inocentemente uma por uma. Até que uma chamou sua atenção . Era uma árvore esculpida com proeza. Era maior que as outras estátuas e a riqueza de detalhes tirou qualquer dúvida. Ele conhecia esta árvore, mas com toda a certeza. Havia um pequeno menino sentado sobre as suas raízes, parecia que esperava por alguém, olhando para o horizonte.

Vasculhando suas memórias longínquas, ele finalmente lembrou-se, virou-se para o jovem escultor:

Quando foi que você saiu?” – Perguntou?

O rapaz, abaixando os olhos, disse que não sabia do que ele estava falando. Sentou-se em sua pequena mesa e voltou a esculpir o pedaço de madeira que segurava.

Indignado o visitante puxa uma cadeira para próximo do escultor e, fazendo pressão para conseguir a resposta que esperava, perguntou novamente:

Quando foi que você saiu?”

Novamente ignorado pelo rapaz, ele subiu a voz e se aproximou cada vez mais do escultor. Perguntando mais e mais.

Quando foi que você saiu?”

“Como foi que você saiu?”

“Onde você viu a árvore da estatueta?”

“E, por Deus, POR QUÊ VOCÊ VOLTOU E SE ESCONDEU AQUI?!” Esta última já aos berros, se segurando para não dar um belo tapa na mesa de trabalho.

A última pergunta fez parar o que estava fazendo, segurando ambos, madeira e cinzel, com as mão trêmulas, e respirar fundo. Não sabia o que responder. Só conseguiu organizar simples frases:

“Como você sabe de isso?! Você andou me seguindo por aí?! Não fiz nada de errado!” – Respondeu com medo.

Nunca te segui e nunca quis te ameaçar! Só que conheço tudo nessa cidade! Cada mínimo detalhe! Sei muito bem o que eu fiz e o que não fui eu que fiz! E tenho certeza que esta árvore fica lá fora… Sobre a última colina, antes de chegar no mar.

Com estas palavras o jovem largou as ferramentas de trabalho no chão e pasmo olhava fixo para seu interlocutor. Não sabia, agora, nem o que pensar. “Como assim ‘eu que fiz’? E quem é ele?!” Pensava para si, sem chegar a conclusões concretas. Seria ele Deus, com seus muitos disfarces para testar nossa fé, ou mesmo vindo nos julgar. Não sabia de nada. Não sabia se era alguém a quem ele deveria temer. Não sabia se deveria contar tudo, ou mentir e inventar algo mirabolante, mas nada lhe ocorria. Estava com o coração se apertando dentro do peito e com os nervos a flor da pele e, mas, mesmo assim demorou a ceder ao olhar frio e profundo que o encarava estático.

Por algum motivo, esta resistência toda só fazia o ‘criador’ querer mais e mais as respostas. Tinha esperança que fosse uma pessoa forte, uma pessoa que  poderia fazer alguma coisa. E isso tornava o seu olhar, a cada momento, mais faminto pela resposta. O olhava mais firme. Como um olhar de pai, que sabe que o filho está escondendo algo.

Ficaram os dois se encarando por minutos a fio, se piscar ou pestanejar. Sem mover um músculo sequer. Mas no final, o medo venceu.
“Não sei de nada, tudo isso foi só um sonho” – O rapaz não sabia mentir. Mesmo – “Nunca saí destas ruas, deste bairro, não sei de mais nada”

Realmente não convencido com o que o rapaz contou, o homem continuou com seu olhar fulminante direcionado para os olhos agora fracos do rapaz. Ele precisava de alguma pista, algum sinal, qualquer coisa. Menos uma mentira tão mal contada. Mas sentia que a fraqueza ia tomando os olhos do jovem escultor. Os seus olhos tremiam, e marejavam. Ele piscava com força. Foi apenas uma questão de tempo até que, depois de muita relutância, uma pequena lágrima escorreu pelo rosto do rapaz. Era tudo que o seu observador precisava.

Foi o mar, não? Ou a imensidão do mundo? Porque ficou com tanto medo?” – Havia achado a ferida aberta.

“Enquanto não tiver nada, não vou ter nada a perder.
Enquanto não sonhar ou tentar alguma coisa diferente, eu serei imune à decepção.
Eu só quero ser feliz aqui, com minhas estátuas, com o mundo que EU posso criar
. Jamais seria livre sem isso

O ouvir estas palavras e espantado com tamanha pequenês de espírito, o Arquiteto se levantou e sem dizer uma palavra sequer virou-se e foi embora, mal se preocupando com a chuva que ainda caía  forte, sempre a poucos centímetros de seu rosto.

Seguia escondido na penumbra da noite, sempre em frente, se perguntando tanta coisa. Tentando juntar os pontos. Já a três quadras adiante, uma explosão e uma luz forte voltaram, novamente, sua atenção para trás. Ao virar, um carro preto, daqueles sedãs grandes, passa correndo fugindo da polícia. Ao se virar novamente, viu o fogo consumir completamente a pequena loja do escultor.

Com uma frieza assombrosa, fecha os olhos com pesar, vira para um muro de concreto, entra em uma porta que não estava lá e desaparece. Finalmente tinha alguma coisa para pensar.

A contadora de histórias

•04/03/2011 • 1 Comentário

Em muitos lugares vem se espalhando boatos sobre uma contadora de histórias. Em todo canto da Cidade é fácil de perceber os sinais. As pessoas pessoas se agitam com qualquer novidade sobre ela – na verdade, qualquer notícia sobre alguém que diz ser de ‘fora’ ja era tratada com uma certa dose de suspense e depois eram todas desmentidas.

Segundo a boca do povo, a tal ‘contadora de histórias’ gostava de ser discreta, mesmo que suas histórias não o fossem e denunciassem algo de novo no ar. Ela sempre aparecia nos locais mais improváveis. Uma das suas primeiras ‘aparições’ foi num pátio de escola, contando histórias para as crianças no intervalo de suas aulas. Sempre aparecia nas praças, contando histórias para alguma pessoa sortuda que estivesse sentada ao seu lado em um dos bancos. E de ouvinte em ouvinte, suas histórias eram espalhadas, mudadas – como geralmente acontece com as boas histórias. Lugares distantes, lugares ao sul, os causos que acontecia em casa, seus ‘bichinhos’ de estimação. Tudo virava boas histórias. De onde ela dizia que vinha havia uma grande floresta, pássaros brincavam na janela de seu quarto. Hora ou outro um símio dava as caras por lá, apanhava algo próximo à janela, como uma pena, e fazia charme para conseguir uma boa barganha , talvez conseguisse um belo pedaço de bolo ou torta.

Em um dos últimos dias do verão, mas com uma bela pitada de outono, tudo parecia normal. Era quase meio dia e em suas salas de aula as crianças ja guardavam seu material em suas mochilas e ansiosamente olhavam para os relógios – presentes em todas as salas de aula, sobre o quadro negro. Quando todos os ponteiros se juntaram foi a correria de sempre. O sinal tocava alto e as crianças saíam de suas salas e iam correndo para fora. Uma destas crianças era Pedro. Ele corria rápido para casa, não se distraia com nada, nem com ninguém. No caminho de casa, passando por uma das ruas que ladeia a Praça do Pinheiro, ele percebeu um detalhe que não pode deixar de parar e tentar entender.

Em meio à multidão, que passava se empurrando na larga calçada, havia uma mesa, com uma pessoa sentada, expressivamente alheia a tudo que estava acontecendo. Parecia estar feliz enquanto olhava para algo na mesa, que emitia um certo brilho em seu rosto. A luz que vinha deste objeto era inconstante e em cada momento de fulgor maior, o sorriso da pessoa se tornava mais brilhante.

Pedro parou e ficou igualmente alheio à multidão. Depois de espiar por um tempo, criou coragem e decidiu chegar perto. Olhando com mais atenção, distinguiu os traços femininos do rosto iluminado. Seus olhos brilhavam com a luz trêmula que vinha do centro da mesa. O corpo dela bloqueava a visão do menino, que esticava o pescoço para tentar descobrir de onde vinha este lindo brilho. Olhou as roupas diferentes que ela usava. Uma capa bege, meio desbotada cobria parte de seu corpo, mas ela possível ver uma faixa de cetim preto em sua cintura e seus cabelos bem compridos. Brincos de argola com pedras amarelas com belos rajados marrons, que combinavam com seu cabelo. Na faixa de cetim estava presa uma pequena bolsa de pano, fechada com uma corda delicada e uma pena.

Sua aparência intrigava o menino em cada detalhe. Ele começou a imaginar que poderia ser a tal contadora de histórias. “Por que não?” – pensava ele, enquanto chegava perigosamente próximo a mulher, que, com qualquer movimento brusco, notaria sua presença. Ele controlava a respiração cada vez mais, chegando a prender totalmente, quando chegou a um metro e meio dela. Agora navegando em sua imaginação, ele já conseguia se ver sentado naquela mesa, olhando para aquela luz trêmula, talvez proveniente de um artefato adquirido em alguma de suas viagens, enquanto ouvia uma deliciosa história sobre algum lugar longínquo. E quando se deu por si, a luz no centro da mesa oscilou forte e se apagou. A mulher levantou da mesa e desapareceu no meio da multidão.

O menino ficou sem ação. Como perdera esta chance! Ele olhava atento para tentar achá-la e sair correndo em meio a multidão. Mas não conseguiu achar um traço sequer.

Voltou, então, o olhar para a mesa. Nela havia um prato simples de vidro, com um pedaço de bolo de cenoura com uma apetitosa e farta cobertura de chocolate. Sobre o pedaço de bolo, se mantinha em pé uma pequena vela apagada. Sem entender muito bem, e com um sentimento amargo de desilusão, Pedro virou-se e continuou seu caminho para casa.

Seria, afinal, verdadeiros estes boatos sobre a tal mulher. Será que realmente existia uma Contadora de Hisórias? E se existia, teria ela viajado por vários cantos do ‘lado de fora’?

Quem sabe?

Mas é bom demais acreditar que sim. Isso diminui um pouco a imensidão e a onipotência da Cidade. Nos faz sonhar em lugares maravilhosos e até então impossíveis em nossas pequeninas mentes. Dentro da imensidão dela, teria espaço para todas estas histórias tomarem forma e, quem sabe um dia, nos tornemos contadores de histórias.  Mesmo com tanto minstério e com tudo o que vejo acontecer nesta Cidade, ainda teimo em acreditar que sim. Em algum lugar está a tal contadora de histórias. Talvez existam mais de uma. Mas o que importa é que eu acredito.

 

PS – Parabéns Cinthia! Muitas histórias ainda estão por vir!

Encontros

•01/11/2010 • Deixe um comentário

Tempos loucos
Tempos de guerra

Lutando contra si mesmo
Sua armadura de alegrias
É tudo o que tem.
Memórias são as únicas armas contra a solidão.

Ate a hora do encontro cada passo se torna infinito
Cada historia se torna mito
Cada sussurro de nossas mentes é um grito de liberdade.
Um grito mudo…
Um grito mudo dentro do universo de ideias que nos deixam cativos
Mas um grito que nos torna vivos.

Abraça meus gritos e eu abraço teus medos.
Abraça me agora
E, em silencio, teus olhos me contam historias aos meus.
E os meus se entregam, inteiros, a versos sem rimas
Que soam leves e ganham forma na minha pele.
Formam poemas. Imagens. Desenhos que se entrelaçam como as nossas almas.
Dançando lentamente sem musica
Dançando lentamente sobre os cacos de corações partidos,
Nossos corações que foram partidos.
E que a casa passo de almas livres ficam para trás…

E assim, como versos tortos em linhas retas,
Estamos novamente abraçados
Nossas armas e armaduras jogadas na grama molhada
Enferrujadas. Consumadas.
Nossas almas encharcadas se tocam como nossos corpos.

E assim a vida nos conta as nossas historias..
Pequenas alegrias são como pequenas flores que encontramos em nossas mãos quando acordamos.
Pequenas alegrias são acreditar por um segundo que elas foram entregues em um sonho, por aquela pessoa que amamos.
Pequenas alegrias…
Como sair correndo na chuva.
Como te abraçar na chuva.
Passar frio juntos na beira do mar..

Em um dado momento o Sol atravessa as cortinas e começa a incomodar meus olhos
Acordo e tento me ajustar à realidade. À esta realidade fugaz que sempre parece estar no  limite de sua existência.
Os olhos ainda falham, mas não tardo a ver em minhas mãos um borrão vermelho. Não tardo a sentir o perfume.
E por um segundo… Tudo isso se tornou vivo, presente. Tão real quanto a rosa nas minhas mãos.
E nada seria tão real…
E nada será.
Minha pele está em branco.
Minha armadura é feita de pequenas alegrias.
E esta rosa…
É meu caminho de volta para a realidade. Para me perder em olhos maravilhosos e nas suas histórias.
Nada será tão real. Até a hora do encontro. Onde trocaremos nossas rosas já velhas e secas. E toda a história vai se repetir… Afinal fomos feitos para as histórias e para as rosas. Para os encontros, para a ‘realidade’.

Mar…

•27/08/2010 • Deixe um comentário

O sol insiste em brilhar forte. Já são dias sem trégua. Os raios de luz trazem um brilho como que poético nas escassas gotas de água que caem do pequeno cantil de couro na boca das crianças. Suas sombras são seu único abrigo enquanto os passos não os levam a lugar nenhum.

Muitos passos haviam atrás deles, muitos deles já escondidos pelo tempo. Tempo que a cada dia se tornava mais mole. O tempo se dilatava livremente diante dos seus olhos. Os dias eram eternos. E por mais longas que fossem as noites, elas nunca eram o suficiente. Parecia que o tempo escorria por entre os seus dedos e tudo o que havia para trás não existia mais. Nem o menos vestígio.

Tudo era um deserto. O céu era um deserto. O mar era um deserto. A água salgada tornava tudo mais seco.

Davi, sem muitas esperanças olhava para os seus mapas. Mas o mar era sempre um mistério e os levava para direções que não se podiam medir. O mar gosta de pregar estas peças. Seu temperamento era muito como o da Cidade. Mas havia muito mais no mar, uma sutilidade, um encanto, uma ‘malícia’ que a Cidade jamais teria. E invejava. Suas ilusões grosseiras eram movidas por uma fome de sempre ser maior. Movidas pelo sentimento de ter sido abandonada por seu criador. Sua única saída era se alimentar dos medos dos homens. Crescer nos medos dos homens. Lá ela poderia ser infinita… Infinita como o mar. Como o mar realmente é. Por sua natureza.

Só havia uma pessoa que entende o mar. Ele o criou exatamente assim. É sua obra prima. Só o céu pode se comparar ao mar.

E, com suas lábias e suas malícias, com suas mentiras e suas verdades, o mar continuava levando o pequeno barco. O jovem Davi segurava o timão com todas as suas forças, lutando incansávelmente contra o mar. Ele sabia, e sempre fazia questão de repetir para todos no barco, que tudo que o mar queria era enganá-lo. Que o mar queria que eles ficassem para sempre nele, perdidos.

Mais um dia se acabava e uma névoa espessa cobria tudo. E, como todas as noites. Davi baixou a vela, fechou todas as aberturas e ja estava pronto para entrar e dormir um pouco. Descansar para mais um duelo ingrato contra o mar.

A luz já havia afundado na névoa e a escuridão era quase dominante no olhar frustrado de Davi quando ouviram-se passos no convés.

“Vai dormir Davi. Deixa que eu termino as coisas por aqui. Queria ter um tempo a sós com o mar.”

Arthur reclinou-se sobre o guarda-corpo que delimitava a área do timoneiro. Era de metal. Bastante brilhante durante o dia. Davi estranhou sua presença lá, pois já há alguns dias ele estava ‘preso’ no seu quarto. Sozinho. Somente com seu diário de viagem.

Incrédulo, Davi respeitou o pedido do senhor e foi para seu quarto. Precisava mesmo de um descanso. Parecia que o mar estava mais pesado aquele dia. E a escassez de água potável já era muito sentida. Arthur segurou o leme logo que ele foi solto pelo jovem. Ele segurava firme, enquanto Davi descia pelo convés e fechava a porta da parte interna do barco.

Ao ouvir a porta se fechar, Arthur imediatamente soltou o leme e desceu para o convés inferior. Próximo à borda ele se sentou e olhou fixamente para o mar. Ficou por alguns minutos apenas olhando. Sem severidade, sem malevolência. Apenas olhava, tentando entender um pouco dos seus mistérios.

Depois de cansar um pouco, ele subiu de volta para o local do timoneiro. Lá havia um pequeno banco estofado. Ele deitou-se lá e olhou para o alto, para a névoa.

Logo a luz de uma pequenina estrela conseguiu transpor a névoa e chegou aos olhos de Arthur. Depois vieram outras. O céu se iluminava, e a névoa com ele. Ele estava maravilhado com a resposta do mar. Com esta visão ele adormeceu.

Em seus sonhos o barco chegou a uma pequena ilha durante a noite. Com uma pequena lanterna, Arthur desceu do barco e foi andando pelas areias grossas da pequena praia. Pouco a pouco as estrelas apareciam em meio à neblina e Arthur percebeu como era pequena a ilha. Além da pequena praia, onde estava o barco, havia apenas uma grande pedra no centro e, construído nela, um grande farol desativado.

Curioso Arthur subiu pelas pedras até chegar à porta do farol. Entrou e chegou em uma grande escada que subia para a escuridão. No alto havia apenas uma porta, sem nenhuma indicação, nem nome, nem nada. Ao lado dela havia um grande disjuntor empoeirado, com uma caprichosa teia de aranha entre ele e a parede.

Ele, depois de muita hesitação baixou o disjuntor e um barulho forte ecoou porta adentro. Assustado ele desceu correndo as escadas. Saiu do farol e correu pedra abaixo. Olhou hesitante para trás e viu um facho forte de luz saíndo do topo do farol e adensado pela névoa. Diferentemente de um farol ‘normal’, sua luz permanecia estática. A visão desta luz indo para o infinito o deixou muito impressionado com tudo o que havia visto.

E em um instante tudo sumiu.

Ele acordava jogado no convés e antes de fazer qualquer esforço para se erguer, ele abriu bem os olhos e não podia acreditar no que estava vendo. Um facho de luz que ia até o infinito. Na extremidade visível estava um grande farol, construído sobre uma pedra em uma pequena ilha.

Não se demorou muito admirando e logo virou o barco para a direção da luz. E seguiu viagem.

Quando o sol nasceu, Davi subiu de volta para o convés e sem entender muito o que estava acontecendo. Aproveitou a prontidão de Arthur ao segurar o leme e deixou que ele continuasse o serviço. A noite havia sido longa e cansativa. Um longo pesadelo, com ondas cada vez maiores e mais fortes e heroicamente ele seguia pilotando o barco, enquanto suas forças permitiam, por através das ondas. Ele mal queria saber de mar, muito menos de pilotar. Logo em seguida, desceu de volta para seu quarto.

Ao ouvir a porta fechar, Arthur soltou o leme e foi até a beira do barco e olhou para o mar. Risonho.

“Realmente você é tudo o que dizem, nem  mesmo o arquiteto entenderia.”

Despertar

•17/08/2010 • 1 Comentário

“Uma cidade feita de medos…”

Arthur ficara pensando nessa frase durante dias. E eles passavam devagar, dando a entender que o universo, ou seria a Cidade, ou seria o dono daquela voz do sonho. Parecia que era esta a hierarquia que se organizava. E tudo isso viravam linhas de um quadro monstruoso. Os traços fortes. A Cidade crescia na tela como crescia fora dela.

“Uma cidade feita de medos…”

Repetia ele repentinamente. Já faziam horas que estava na saleta, com todas as janelas fechadas. Sua imaginação percorria espaços jamais pensados antes. As coisas se desenhavam como ficção científica. Como se a Cidade tivesse literalmente ganhado vida e dominasse tudo. Ou seria só um momento de loucura. Deveria ser. Ele sabia que havia mais, muito mais que a Cidade no mundo. Ele pensava em Davi, ele deveria estar quase no mar a esse ponto.

Como era belo o mar. Este sim era maior que a Cidade. O mar infinito. O mar de tantas faces e de tantos olhares. Às vezes aquele olhar hipnótico que te chama para o fim, para o fundo, para fazer parte do mar. Às vezes aquele olhar que te faz virar as costas para nunca mais voltar. E de fato Arthur jamais teria voltado. E hoje estava de volta na Cidade. Parece que o mar também é feito de medos. As ondas são pequenas ou grandes de acordo com o medo que temos delas.

Mas quando vamos de encontro às ondas elas vemos que realmente elas não são tão grandes como o medo que temos delas, por maiores que elas sejam.

“Um mar feito de medos…”

Sim! Todos os seus pensamentos foram varridos por aquele mar. Ou aquele medo do mar. Ou aquele medo de nunca mais voltar. Ou aquele medo de se perder pra sempre sem a…

Agora tudo fazia sentido. O mar sabia de tudo! Como ele poderia ir avante sem ter voltado para buscar quem realmente importa?

Arthur se levantou repentinamente de sua banqueta e as tintas que estavam em sua palheta não eram mais suficientes para pintar o que ele pensava. Chega de pintar quadros! Chega de tomar café todas as manhãs olhando aqueles quadros. Chega de abrir uma página aleatória de seu diário a cada dia para que as traças lessem. Chega de esperar outro Davi. Ou o mesmo Davi. Talvez seu messias jamais voltaria e ele estaria preso naquela prisão de lembranças até que sua memória estivesse enterrada em um quadro inacabável. Um quadro feito de medos. Que ninguém jamais veria.

Tudo o que ele pode fazer agora foi arremessar toda sua tinta azul naquele quadro e afogar todo aquele pesadelo naquela tela. Pegou seu casaco mais espesso, pois o frio estava forte lá fora. Pegou sua mochila, pegou a Sra. Margarida pelos braços, deu-lhe um casaco e disse apenas uma frase:

- É hora de irmos!

Andaram rapidamente até a porta da frente e Arthur não acreditava em seus olhos. A Sra. Margarida muito menos. Eles se abraçaram firmemente, olharam firmes nos olhos uns dos outros e se certificaram de que tudo era realidade. Seus corações batiam rápido, e aceleravam cada vez mais. Cada segundo mais. Cada décimo, centésimo, milésimo… E, por um momento tudo parou. Ambos seus pés estavam afundados em uma relva confortável, macia e quente. O sol batia forte no rosto deles e não havia nuvem alguma no céu. Ambos, sem mover o olhar tiraram os casacos e os deixaram cair livremente na relva e sentiram o calor do sol em suas peles já tanto vividas. Os cabelos morenos da Sra. Margarida livremente balançavam com a brisa quente que soprava do norte. Quando os batimentos voltaram ao normal e quando os olhos se acostumaram com a luz viram um campo verde que se extendia por todas as direções. Não havia mais ilusão para eles dois. Arthur tinha medo de olhar para trás e ser puxado de volta para a sala de sua casa e nunca mais ver aquilo novamente. Mas seus medos não foram tão grandes como a vontade de, com o olhar dizer adeus para todo aquele lugar. Ele se virou e a casa estava lá sozinha. Ao fundo, bem distante, era possível ver a Cidade simplesmente acontecendo.

A porta estava aberta e a sala estava escura. Todos os seus quadros estavam lá, esperando, em vão, que Arthur desistisse de deixá-los. Mas era tarde demais. A idéia de que era a hora de partir já tinha se alastrado por cada um de seus neurônios e era impossível voltar atrás. Mas seu olhos custavam a deixar aquele cenário tão familiar. Permaneciam imóveis, esperando que tudo sumisse por si. Ou que esse ambiente o abraçasse levando-o de volta para ‘casa’.

- Eram apenas medos Arthur, apenas medos…

Com passos curtos, emergiu da sombra uma figura alta, vestindo um terno preto bastante elegante, com sapatos igualmente pretos, brilhantes. Seu cabelo era negro, curto jogado para o lado, bastante liso. O rosto limpo sem barba nem bigode. Seus olhos eram estreitos, castanhos, tangidos por uma sobrancelha bem delineada. Mas seu rosto não parecia sério. Pelo contrário. Olhava Arthur como se fossem velhos amigos.

- Para que olhar tanto? Ou será que você não entendeu o que é tudo isso. Ou quem eu sou?

Brotaram do solo uma pequena mesa de praça, com duas cadeiras de metal. Na mesa, uma xícara apareceu, repleta com um capuccino que exalava um cheiro maravilhoso. Os dois se sentram e no momento tudo em volta parou. Os sons, os movimentos, animais. Até a brisa quente que vinha do norte cessara. E Arthur simplesmente ficou abismado com tudo aquilo. Com a maneira que ele havia chegado lá e feito tudo isso. Será que ele seria…

- Não Arthur, eu não sou Deus. Nem perto disso. Pode me chamar de Arquiteto. Sou tão mortal como você, mas as semelhanças acabam por aí.

A voz definitivamente era conhecida. Mas o espanto impedia Arthur de progredir em qualquer linha de pensamento ou de raciocínio. Estava atento apenas naquela ‘pessoa’ sentada à sua frente, tomando lentamente o capuccino.

- Você realmente entendeu o que você ouviu no terraço naquela noite. A cidade é feita de medos, mas é tão sólida quanto os seus medos. Ela é tão real quanto os seus medos. Ela é imperfeita como os medos de qualquer um de nós. Eu a criei a partir dos meus próprios medos. Todas elas são assim. Mas esta nossa em particular. Minha. Esta sim foi uma obra prima. Mas saiu de controle e meus medos já não mais eram suficientes. E ela começou a se apropriar dos medos de todos. Foi crescendo cada vez mais até ficar virtualmente infinita.  Tudo o que foi construído em pedra morta pelo homem é ridículamente pequeno ao do que eu construí com simples pensamentos e idéias.

E então deu o gole derradeiro na sua xícara e levantou-se da mesa, chamando Arthur com ele para dar uma volta. Andaram um pouco e olharam a cidade ao longe. Inerte. Arthur percebia o olhar do Arquiteto umedecer. Não era apenas tristeza, mas, talvez, um pouco de saudade dos dias áureos de sua criação. Ele hoje era um monstro e restava-lhe apenas uma alternativa. Dar pistas. Uma a uma. Para uma pessoa de cada vez. Talvez um dia os medos a alimentá-la não sejam mais tantos.

- Só queria dizer uma última coisa. Seu último quadro é fantástico. Deixarei-o lá. Como deixarei a casa lá. Agora vai que o Mar te espera. Ele é uma criação maior que eu. Talvez até seja Deus que tenha o feito por sí mesmo. Infinito.

Com seus passos largos, característicos seus, o Arquiteto voltou para a velha casa de Arthur e, sem hesitar, cruzou o vão da porta de entrada e fechou lentamente a porta. Quando ouviu-se a chave dar a primeira volta no lado de dentro, Arthur sentiu uma brisa quente em seus cabelos. Margarida andou ao seu encontro e os dois se olharam tentando acontecer o que teria acontecido. Olharam para a casa novamente mas ela não mais estava lá. Havia voltado para seu lugar. Não era mais sua, nem de seus medos. Deram as costas para tudo aquilo e seguiram em frente. Havia apenas uma elevação a frente. Um grande morro com uma frondosa árvore ao fundo. Suas folhar voavam com a brisa que vinha do norte e se espalhavam pela relva. Tudo era convidativo.

Andaram por algum tempo até chegar a uma distância suficiente para perceber que havia uma pessoa sentada aos pés da árvore. Usava um chapéu que cobria seu rosto pois, aparentemente, ele dormia profundamente já há um bom tempo. Quando estavam há uns quinze metros da árvore, a pessoa se levantou. Ainda com a cabeça baixa. Ainda era irreconhecível por causa da sombra. Mas ela ia andando na direção deles. O Sol estava cada vez mais forte por trás dela e a sua sombra formava um facho de penumbra à sua frente. Sem dar pista alguma de quem poderia ser, apenas chamou os dois para irem à sua direção.

Arthur e Margarida o seguiram lentamente e, ao,passar das raízes da grande árvore, seus olhos foram banhados um uma quantidade imensa de luz e, logo após, de azul. O Mar estava lá. Diante dos seus olhos incrédulos. Margarida nunca havia visto nada como aquilo e Arthur jamais sentiu-se tão chamado por seu olhar. Agora sim estava pronto para ir.

Já recomposto da grandiosidade do encontro inesperado com o Mar,  Arthur olhou para o lado e não havia mais ninguém. A pessoa já havia tomado seu caminho falésia abaixo, em uma pequena escada de madeira, que acompanhava sua encosta. Não havia mais para onde ir, então o casal seguiu seus passos.

A escada terminava em um pequeno trapiche que levava mar adentro.Próximo pedra havia uma pequena porção de praia ainda, uma vegetação rala nas partes mais secas e, em uma pequena gruta encravada na rocha havia uma pequena capela, com algumas fotos de mulheres, crianças, senhores e senhoras. No outro extremo do trapiche se encontrava um barco pequeno com velas brancas esvoaçantes, como se fossem materialização do próprio vento. A pessoa da árvore já estava dentro do barco esperando por eles dois. Mas havia uma coisa a ser feita antes de irem algo que daria sentido a tudo isso.

Arthur colocou sua mão no seu bolso direito e, do fundo, tirou um pequeno anel. Era de ouro, com uma pequena pedra avermelhada em um ponto. Estava escrito Margarida em letras bastante trabalhadas na parte interior do corpo do anel.

-Acho que já se passaram quase 60 anos daquele dia. Mas não acho que mudei de idéia. Há muitos, muitos anos atrás ja estive aqui, na beira do Mar. E voltei. Voltei para a Cidade. Voltei para o lugar sujeito aos mais sutis caprichos dos meus próprios medos. Voltei pra te buscar. Só pra te buscar. Desde que nos encontramos novamente, naquele dia que teimava em não terminar, eu comecei a te mostrar o caminho que eu havia andado. E você se maravilhava em ver cada novidade. Eu era feliz te mostrando tudo aquilo. Mas agora é a hora de irmos para lugares onde nenhum de nós jamais foi. Vamos partir para uma viagem inédita. Escrever novos diários. E nunca, jamais voltar para aquilo que eram apenas medos.

Margarida sem hesitar, confirmando tudo isso, ergueu sua mão esquerda e vistiu o anel. E então após um longo olhar sem pensar, caminharam lentamente em direção à água. O vento norte trazia respingos que os refrescavam, aliviando a sensação de calor sob aquele Sol forte que brilhava sobre suas cabeças. Ao chegarem ao barco, uma jovem menina os recebeu. Era a pessoa que estava os guiando até aqui. Era jovem, de uns catorze ou quinze anos. Sem dizer uma simples palavra, ela deu as costas e entrou na cabine do barco. E, antes que eles pudessem pensar em embarcar, ouviram passos pesados vindos da cabine.

Logo a menina subiu a pequena escada de volta. Seguida de uma pequena criança, um menino, aparentemente com seus oito, dez anos vividos. Após subiu uma mulher. Alta, com olhos penetrantes. Provavelmente a mãe das duas. Os três olharam para o casal de convidados e, em seguida para a porta da cabine, de onde se ouviram mais passos. Estes leves e tranquilos. Passos de uma pessoa que já se acostumou a andar para viver e viver para andar. Passos despreocupados. Usava o chapéu que a primeira menina usava em seu encontro, lá no alto da falésia, diante da árvore. Suas roupas eram simples. Chinelos nos pés, uma simples calça clara acima. Uma camisa polo, com seus botões abertos pelo calor. E ao chegar no rosto…

-Bem vindo a bordo, Arthur!

O rosto de Davi brilhava. Tantos anos haviam se passado para ele, mas ainda era impossível dissociar da imagen singela daquele jovem entregador de cartas tempos atrás.

-Vamos Arthur! Para as águas mais profundas. Não vamos para a direção do pôr do sol. Temos ainda muito tempo para navegar.

E logo o vento deu os primeiros impulsos no barco, que seguiu para longe das felésias em direção de algo que nenhum deles jámais havia visto antes. Nem ao menos imaginado.

De fato a antiga casa de Arthur voltara a seu antigo lugar. Estava lá, encrustrada entre aqueles dois grandes edifícios. Sua porta estava aberta. Sempre aberta. E sempre. Sempre estava lá, sentado nas banquetas da saleta, admirando a tela estendida no cavalete, o Arquiteto. Em suas mão, o antigo diário de viagens. Ele o lia atentamente, palavra por palavra, admirado com a beleza das pequenas criações. A cada página lida um pensamento lhe ocorria inplacavelmente: “Como seria maravilhoso ler o novo diário…”

Discursos

•08/08/2010 • 1 Comentário

” Os muros da cidade são feitos com muito mais do que tijolos… São construídos com os medos de cada uma das pessoas que vivem aqui. São feitos de sonhos também. E não só de sonhos bons. Ela não é assim apenas por ser e nem podemos dizer se ela é assim mesmo. Olha para baixo e vê as pessoas andando nas calçadas daquela avenida. Agora lembra daquele que se foi. E pensa agora como quem voltou. Ela nunca é a mesma.

A luneta sempre está a disposição para quem quiser. As respostas são sempre gratuitas para quem as quer. Mas quem não as quer paga sempre um preço muito maior. Quem apenas infla o seu ego com sensações simplórias como controle, poder, domínio, não vai ser capaz de ver nada além dos seus domínios. E pode acreditar, ninguém me domina, e muito menos, ninguém domina a cidade.

Estou sempre livre. Livre para agir. E possuo meios nada convencionais de dizer as coisas. Tudo poderia ser mais fácil, mas o sabor da descoberta e a surpresa com a primeira vista, que você sabe que é a melhor de todas, não pode ser tão depreciado a ponto de qualquer um poder sentir. O preço seria muito caro.

Todos aqui foram amaldiçoados por nascer na Cidade. Por viver seus anos servindo a Cidade. Mas são abençoados por ter a chance de fazer a maior das descobertas das suas vidas. Imagine como deve ser Deus. Ser onisciente. E perder a chance da descoberta. Esta é a graça maior do homem, é o maior dom. A mente é capaz de descobrir coisas novas infinitamente. Tudo o que você vê à sua volta é fruto da mente humana. É fruto do que pensamos e do que descobrimos. Tudo é intimamente ligado à mente.

E, sim. A Cidade é infinita. Pode acreditar em cada palavra que foi dita. Mas como se consegue andar até o fim de um lugar infinito?

Você já fez isso, Arthur. O jovem Davi acabou de faze-lo novamente.

Muito mais do que simples tijolos. Pense bem nisso. A viagem de volta do elevador é longa. Você tem muito tempo tal…

Nos encontramos aqui amanhã a noite? “

E realmente o caminho era muito longo. Sempre longo o suficiente para se pensar em qualquer resposta, desde que você queira chegar a ela. Se não, nada do que dois minutos não resolvam. Mas cada minuto a mais era precioso

Fragmentos #1 – O topo do mundo.

•02/08/2010 • 1 Comentário

A noite era comprida. Arthur estava sentado imóvel olhando fixamente o quadro que teimava em se fazer inacabado. Sua cabeça já estava cheia destes sonhos loucos e, logo ao sair do elevador, ele acordara.  As noites estavam se tornando uma ladainha que teimava em se repetir incessantemente.

O seu quadro se desenhava a cada noite mais um pouco e nada parecia fazer sentido. Ele teimava em não acreditar nas teorias malucas em que criava ao ver sua obra. E esperava que, em uma noite, finalmente, algum traço desenhado daria sentido para todos os outros e que tudo seria revelado.

Cansado de olhar fixamente para a tela, Arthur foi à cozinha preparar uma xícara de chá silvestre – era o seu favorito – e sentar confortavelmente em sua poltrona na sala de estar e, envolvido na simples apreciação do chá, esperar que estes pensamentos deixem sua cabeça para que ele possa ir dormir novamente.

Era essa a ladainha de todas as noites.

Sentado na poltrona, com uma mão no pires e a outra na xícara, Arthur se detém em um detalhe que passara desapercebido todas as noites anteriores. Logo à sua frente, aberto sobre uma pequena toalha de bordado de lã de tons azulados, o seu diário de viagens. Ele o mantinha sempre aberto, tal como uma bíblia em uma casa de um fiel fervoroso, esperando que um dia ele tenha algo a lhe dizer.

Ao deixar de lado a xícara já vazia e folhear as páginas já amareladas do diário, as memórias invadiram sua mente implacavelmente, sem dar chance alguma aos sonhos. Eles eram pequenos respiros diante a força das experiências contadas alí. A liberdade era plena. A vida ganhava sentido a cada passo dos anos de caminhada, andando por lugares inimagináveis e sempre com consciencia de que tudo aquilo jamais poderia ser tudo. Por um momento aquela consciencia tomava traços de uma certeza absoluta, de uma verdade irrefutável. Foi um momento glorioso. E tudo estava anotado nas páginas amareladas. Ao ver o título das anotações, teve certeza de que aquele momento foi tudo aquilo que a memória o mostrava e muito mais.

“O Dia Em Que O Mundo Coube Nos Meus Olhos

É impossível que você, que lê estas páginas, irá perceber a dimensão do que é isto aqui. A não ser que você seja eu. Tudo ganhou sentido. O que era apenas um sentimento se tornou verdade. Verdade sólida como esta pedra em que estou sentado. À proposito, estou sentado em uma pequena pedra escura, em meio a tanta neve, no cume do monte mais alto do mundo. Foram 3 dias e meio de caminhada até aqui mas a visão compensa cada gota derramada de suor.

Daqui é possível ver tudo, cada passo que dei até chegar até aqui. Voltando montanha abaixo, passando pelos vilarejos, pelos campos, florestas, cidadelas, cruzando os rios, os vales que eles formavam, até chegar lá. Ali estava ela. Eu ainda a via imponente, absoluta. Mas, pela primeira vez, eu a vi finita. Todo o seu desenho era até obvio olhando daqui de cima. Era apenas um borrão marrom, mas eu conseguia vê-lo pulsando com toda a ‘vida’ que acontece alí. Ela acabava. Era inacreditável, mas ela acabava mesmo! E era incrivelmente pequena diante de tudo o que eu consigui ver daqui, o que é praticamente tudo o que a curvatura do planeta me permitiu.

E como é belo tudo isso! Está sendo ainda, na verdade. A liberdade é maravilhosa! Todas as minhas antigas certezas e ambições vieram abaixo. E eis que se faziam novas todas as coisas. Tudo o que eu acreditava ser o mundo e o universo se tornou tão pequeno. Tudo o que eu acreditava ser tão absoluto, tão opressor, tornou-se tão frágil.

Como a Cidade. Nada mais é como antigamente.”

 
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