Abaixo de um céu cinza chumbo…

Não sei se sou eu, mas ultimamente o ar anda meio estranho aqui na cidade. Não sei bem dizer o que pode ser. Saí de casa pela manhã e, andando pela avenida em que moro, percebi uma ‘coisa’ pesada pairando. Não era aquela neblina típica do inverno daqui, que é presságio de um dia mais ameno durante o inverno, mas não era possível ver o topo dos edifícios mais altos. De algum modo eu conseguia andar pelas calçadas sem maiores problemas, mesmo estando sempre olhando para o alto. Estava em um corredor de prédios e mais prédios que iam até onde a vista alcança e os prédios são tão juntos que não se vê o que acontece fora. Nos breves cruzamentos, ao atravessar as ruas transversais, consigo ver um horizonte, mesmo que pequeno. E nessa pequena faixa vertical de céu, dá pra se perceber as cores variadas que formam este estranho céu de inverno. Seria muito trágico eu chamar a cor do horizonte de cinza chumbo, mas não consigo achar um outro nome para o que eu vejo. talvez um cinza chumbo um pouco mais claro, mas não deixa de ter o aspecto levemente frio, um cinza que nao vai nem para o azul, e nem para o vermelho, um cinza chumbo. O zênite é menos alarmante, com um azul forte, sem núvens, com o sol de um lado e a lua bem desenhada em branco do outro.

Tudo isso me hipnotizava de um jeito que não havia saída. Era difícil não imaginar os motivos mais malucos para que tudo estivesse desse jeito mas permanecia olhando atônito, sem pensar, sem parar no lugar. Eu seguia caminhando pela calçada da avenida e já haviam se passado, mais ou menos, uma hora e meia e o ceu permanecia o mesmo. Na minha cabeça imperava o silêncio. De algum modo eu não conseguia  ouvir nada. Era um mundo paralelo em que eu vagava com o olhar e nada mais.

O que poderia haver além. Além do que eu consigo ver com os olhos nus. Sabia que aquilo não poderia ser tudo. Haveriam planetas, estrelas, galáxias. Haveriam também povos como nós, povoando seus planetas. Tantas teorias, tantas hipóteses. Tantas perguntas a fazer e tantas respostas a encontrar! O universo me parecia uma coisa tão fascinante e tão longínqüa. Talvez infinita, talvez exista um limite para tudo. Talvez eu nunca vá saber. Mas é tão bom olhar pro céu e conseguir, na minha cabeça, construir um universo inteiro. Em cada detalhe. Com lugares tão exóticos e diferente, com seres igualmente únicos lutando pela sua sobrevivência. Talvez, em uma galáxia muito, muito distante, existam outros seres humanos, que pensem que são os únicos seres inteligentes deste universo. Talvez um dia, com viagens intergaláticas daquelas que vemos em Guerra das Estrelas, algum dia nos encontraríamos.

Mas, de repente, meu ouvido dá sinais de existência, minha cabeça acompanha uma viatura policial enquanto ela passa ao meu lado e segue na direção oposta à minha. Fechei meus olhos, virei para frente, ergui a cabeça, olhei para o céu e ví que ele estava lá, ainda esperando para que eu o olhasse e, como num estalo, continuasse viajando.

Fiquei no lugar, olhando imóvel para o céu. Procurando as estrelas e galáxias por trás do clarão do Sol, mas, por mais que me esforçasse e me concentrasse, não encontrava nada. Tentei andar, e ver se, com o tempo, as encontraria,  mas no primeiro passo, pisei em falso no meio fio e cai na calçada sem entender muita coisa. Senti meu corpo bater pesado no piso de petit-pavet. Senti a aspereza das pedras na minha pele e finalmente tinha entendido que a magia havia acabado e aí estava eu, jogado em um mundo concreto, em que podia sentir com minhas próprias mãos.

Me levanto e vejo multidões andando ao meu lado, todos falando, dezenas, centenas de vozes, assuntos. Ônibus passando lotados, carros, motos passando e deixando aquele cheiro forte de fuligem no ar. As cores de um mundo real são mais nítidas do que qualquer coisa que eu possa imaginar. Aqui existe tanta coisa para se ver, tantos lugares pra ir, tantas pessoas para contar tantas histórias. Há tanto para se fazer. Tudo o que resta a se fazer é ‘vestir as minhas roupas de domingo’ e sair para conhecer tudo que se pode conhecer dentro de uma existência.

O horizonte continua cinza chumbo e ainda não consigo ver os topos dos prédios ao longe…

Anúncios

~ por jlavelino em 07/07/2010.

Uma resposta to “Abaixo de um céu cinza chumbo…”

  1. O cinza chumbo próximo ao horizonte se chama “poluição” na maior parte das vezes… infelizmente.
    E é uma pena que uma existência não seja o suficiente para conhecer este nosso rico planeta, quem dirá o universo inteiro lá fora e seus mistérios.
    Ótimos pensamentos. ^^

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: