A lenda do ‘Lado de Fora’

Dizem as lendas que existe um lugar onde a Cidade acaba, do ‘Lado de Fora’.

É algo além de nossa realidade, por mais que você já tenha acordado para ela.  As pessoas  que contam as histórias deste lugar incrível, onde os arranha-céus, as intermináveis luzes, a multidão, a confusão urbana ficaram para trás, sempre as contam com os olhos cheios de suspense. As crianças vibram ao ouvir atentas cada palavra dos velhos contadores de histórias, sentados nos velhos bancos das praças, das raras praças que ainda sobraram nessa vastidão que é a Cidade.

Os anos se passam e, com o andar das gerações, a lenda foi se enfraquecendo. Mas de tempos em tempos aparece uma pessoa contando da imensidão que é ‘Lado de Fora’, e alimenta a esperança daqueles que ousam a sonhar. Daqueles que já abriram os olhos.

Já faziam algumas décadas da última vez que alguém voltava, impelido a contar para o máximo de pessoas que puder cada detalhe, cada experiência, cada cor a mais do mundo exterior. Eles não conseguem se segurar pois seus olhos estão mais abertos que nunca. Eles conseguem ver o que virou, de fato a Cidade. O mundo dentro de um mundo.

Este últmo que retornou é o velho Arthur. Um senhor de seus oitenta e poucos anos, já bastante diferente do jovem aventureiro que há quase 50 anos deixara  de ser apenas uma mente promissora, um jovem que havia acabado de deixar a universidade para uma promissora carreira como arquiteto, e saíra. Morava em uma pequena casa, incrustrada entre prédios imensos, em uma grande avenida do centro da Cidade. Sua casa era motivo de olhares intrigados de todas as pessoas que passavam, e de alguma maneira sentiam de leve, embaixo da pele, a grandiosidade daquele lugar.

Para um simples morador da Cidade, entrar lá era como entrar num cenário fantasioso. Quadros preenchiam as paredes, objetos estranhos cuidadosamente distribuídos pela casa toda. Em uma saleta conjugada à sala principal haviam 3 cavaletes, ambos com telas inacabadas. Arthur sentia a necessidade de eternizar cada detalhe visto, cada lugar visitado, os tipos que se encontravam pelo caminho. Em suas centenas de quadros, pintados com uma habilidade cada vez mais refinada com os muitos anos de trabalho, haviam paisagens, retratos, registros de anos de andança. Muitos deles não eram de fato rais, mas, sim, o que sua mente guardava, traços característicos de tudo o que ele via e sentia. Isso dava a elas um valor incalculável. Eles valiam muito mais que as fiéis fotografias em sépia, cuidadosamente enquadradas, ou em pequenos porta-retratos espalhados sobre as mesas, estantes, cômodas, piano, ou seja, qualquer plano horizontal visível.

Mas sobre a mesa de centro da sala estrar, permanentemente iluminada por um abajur antigo, estava seu bem mais precioso. Provido de uma capa de couro grossa, marrom escura e detalhes em baixo relevo. O seu diário de viágem. Ele o deixava sempre aberto e o vento tinha liberdade para escolher a página a ser exibida.

Na primeira página, já bastante envelhecida, estava escrita apenas estas frases:

“Terça-feira, dia 18 de agosto do ANO ZERO: Hoje eu acordei à vontade. Quero andar sem parar, para qualquer direção. Montei a minha mala e, assim que terminar meu café-da-manhã, me vou!”

Ninguém sabia o que havia lá fora. Nas extremidades da cidade as ruas se tornam tão confusas que não se entendem mais as direções. O prédios começam a se misturar com fábricas. Camadas e mais camadas de um emaranhado de tubos, passarelas metálicas já um tanto enferrujadas, fios elétricos, esteiras levando carvão, guindades se estendendo sobre as vias, todos com engolidos por uma densa névoa de vapor de água, que, junto com as pequenas lâmpadas amarelas industriais, gerava um efeito de desorientação indescritível. Ao fundo se veem os grandes globos de armazenamento de combustíveis, os silos para armazenamento de alimentos, as chamas vivíssimas das refinarias e as enormes chaminés das antigas usinas de carvão. Tudo isso criava um cenário assustador para quem vivia no centro da cidade. Havia poucas pessoas naquela região, apenas as necessárias para a manutenção mínima do funcionamento das indústrias, e todas elas vestidas de macacões pretos e máscaras de gás. O Sistema cuidava de tudo. Recebia os alimentos que vinham dos trêns que chegavam diariamente do mundo exterior, as máquinas eram o suficiente para que toda a cidade sobrevivesse e a grande diretriz era “Alimentar o Sistema”.

Arthur, na sua obstinação seguia adiante, enfrentando os seus medos, encarando friamente os ‘homens’ de preto que surgiam repentinamente da névoa, com seus rostos indecifráveis escondidos sob as máscaras. Alguma coisa em seu íntimo o empurrava adiante. Sentindo que ele estava próximo, mergulhava névoa adentro. Seus olhos estavam mais abertos do que nunca e nenhuma ilusão o faria voltar para casa sem antes sentir a experiência do infinito. Ele andava, segurando firme as alças de sua mochila, onde ele levava papel em branco, alguns lápis e canetas, seu diário e uma antiga máquina fotográfica, que havia ganhado de seu avô anos atrás, quando era apenas uma pequena criança. Seus passos se tornavam pesados, ele os contava um por um, desde a soleira da porta de sua casa. A névoa começava a ficar mais densa e clara. Alguns raios de luz branca começavam a se misturas com os pequenos pontos amarelos. Os fachos luz cresciam, se juntavam e a luz se tornava cada vez mais intensa, ofuscante. A sensação era de se andar dentro de uma núvem.

Arthur, sem mais pensar em seus passos fechou com força os seus olhos, e no tempo de uma respiração profunda, deu seu primeiro passo para fora da cidade.

E a partir dele muitos outros vieram, por anos e anos. E hoje, todos eles seguem ‘guardados’ em uma pequena casa na Avenida nº 3, onde Arthur atravessava a sala de estar para atender a campainha e receber do jovem entregador, seu jornal diário e uma estranha correspondência, sem remetente e com selos nunca antes vistos por Arthur, nem pelo curioso rapaz.

– O senhor sabe de onde pode ser esta carta, senhor, humm, Arthur?

– Tenho uma leve impressão de que sei, meu jovem. Por que você não entra para tomar uma xícara de café…?

– Davi, senhor. Meu nome é Davi.

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~ por jlavelino em 12/07/2010.

2 Respostas to “A lenda do ‘Lado de Fora’”

  1. Lindo texto! Realmente emocionante a cena em que Arthur sai da cidade pela primeira vez. ‘-‘

  2. não me é estranho este mundo de fora…

    ^^

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