Stop The Clocks…parte 1

Uma manhã comum, com seus tons claros, mas que logo se tornariam cinza chumbo, deu início a mais um dia na Cidade. Às seis e meia da manhã todos os relógios ecoavam entre os altos prédios e despertam uma população preparada com afinco para viver o dia exatamente como tem vivido durante os últimos muitos e muitos anos. As novidades não são muito comuns na Cidade.

Em milhões de apartamentos, as pessoas se levantariam, escovariam seus dentes, colocariam suas ‘roupas de domingo’ e iriam tomar café da manhã na mesa da copa ou da cozinha. A rotina era sempre a mesma no domingo, tanto que eles nem perceberam, tão focados em suas tarefas matinais, que os relógios despertaram às seis e meia um domingo de manhã.

Em um desses milhões de apartamentos, a Sra. Margarida estava preparando o seu café da manhã. Ela morava sozinha já fazia algumas, desde que seu noivo resolveu deixá-la, devido a uma drástica discussão alguns meses antes do casamento.  Hoje, ela havia preparado pães com queijo fatiado, dois deles, com aqueles pães de forma integrais e separado as migalhas em um daqueles sacos de pão. Havia preparado café, daqueles bem fortes, e uma tigela cheia de frutas picadas. Colocou tudo sobre a mesa da cozinha da mesma maneira que tem feito durante anos. Sentou-se na mesma cadeira – haviam duas, sendo que uma nunca foi usada. Demoradamente, tomou seu café, comeu os pães e as frutas, levantou-se e foi para o seu quarto, foi pegar um livro que estava começando a ler, colocar os sapatos e se preparar para descer e ir para a praça – uma daquelas poucas restantes na Cidade – ler e dar as migalhas para os pombos. Ao se aprontar, já iria saindo, olhou saudosa para a foto de seu -ainda- amado, colocada sobre um aparador de mogno, próximo à porta de entrada e ficou por alguns segundos parada no tempo.

Ela não entendia como tudo aquilo tinha acontecido e de um dia para o outro, ele havia cruzado aquela porta e nunca mais voltou. Apenas mandou uma carta, poucos meses depois. Ela estava dobrada sob o porta-retrato e apenas podiam ser lidas algumas frases do final:

“(…) e depois de tanto tentar te falar o que eu sentia, não havia mais saída para mim e meu espírito. Ele ansiava por coisas maiores, ansiava pelo universo, e tudo o que você não conseguia, ou não queria entender. Depois de tanto tempo de preparação mental e espiritual resolvi partir. Na sua visão, pode se dizer que estou morto. Amanhã de manhã estou indo embora. São muitos passos para dar e muita coisa pra se ver.

Depois de tudo o que nós passamos, eu queria lembrar que ainda penso em você e te deixar um pequeno aviso. O mundo é muito mais. Muito mais que podemos ver, muito mais do que podemos sentir. Ele só espera que você acorde para ele, e perceber como ele estava te esperando sua vida inteira.

Ainda te espero um dia. Espero que você perceba tudo o que tenho pra dizer, e me encontre quando eu voltar.

Espero que você realmente acorde um dia…

Ainda pensando em você,

Arthur.”

Estava tudo lá. Mas ela insistia em não entender o que ele tentou dizer por anos, e, depois de partir, ainda fez esta última tentativa com essa carta. Ela insistia em não pegar aquela carta e ler mais uma vez, nem apenas por desencargo de consciência.

Ela, ainda olhando fixamente para o retrato, respirou fundo. Fechou os olhos, levantou a cabeça. Se virou e saiu pela porta. Ao virar para fechá-la, deu uma pequena olhada para seu relógio de parede, preso próximo ao hall de entrada.

Eram 6:30 da manhã.

Ainda abalada pela fotografia, ela fechou a porta com força, deu as costas à ela e foi-se.

——

Obrigado Débora por colocar o título dele no msn… estava tendo problemas em achar um título legal para este post…

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~ por jlavelino em 18/07/2010.

Uma resposta to “Stop The Clocks…parte 1”

  1. E se foi… pra onde? ._.

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