Stop The Clocks…parte 2

O grande relógio da torre da igreja matriz marcava 7:15 da manhã e as ruas já estavam cheias. A rotina da cidade andava normalmente e poucos se davam conta das horas. Era evidente a rotina impressa no rosto das pessoas. Nas casas, as cozinhas já exalavam aquele cheiro gostoso de almoço sendo feito. As mesas já estavam postas só esperando o povo se sentar para a hora de se servir. Era tudo muito comum para este dia tão estranho.

Sra. Margarida permanecia sentada na praça, mesmo sem mais migalhas para dar aos pombos – elas de fato já haviam se esgotado há horas. Ela já lera todo o seu livro. Era um livro generosamente comprido. A manhã estava rendendo para ela.

Com fome ela levantou com um pouco de dificuldade, ela sentira a idade avançando. Pegou suas coisas, dobrou o saco de pão para uma próxima manhã de domingo, colocou o livro sob o braço e foi andando até a beira da praça, onde abriam-se alguns restaurantes, com mesas espalhadas ao redor das portas. Sentada ela olhava para o alto e ficou curiosa com o Sol continuava baixo, mas logo se distraiu novamente com o cardápio.

Atrás dela as coisas continuavam a acontecer normalmente, as pessoas iam almoçar, depois siam para os parques, shoppings, bares. Nada parecia mudar, mesmo que o Sol insistisse em permitir um dia tão louco. À medida que o tempo passava e tudo corria normalmente, as pessoas não se davam conta do que acontecia.

Já eram passados o equivalente a 2 dias e as coisas continuavam iguais. As pessoas seguiam o tempo como convinha para cada um. Alguns já não conseguiam mais ficar longe do trabalho e voltavam para os escritórios, outros desistiam de tudo e iam dormir, esperando que ao acordar já estivesse escuro – expectativa essa frustrada profundamente. As crianças estavam elétricas brincando na praça, as pessoas frenéticas entrando e saindo das lojas.

Em um dado momento as coisas começaram a sair do controle. As pessoas começavam a ficar cansadas. A paciência de cada uma se esgotava com o ‘mundo’. Mas mesmo que sua energia se acabasse elas davam tudo para se mater em suas tarefas diárias. Entediantes. E, no momento em que os relógios marcavam 15:40 e o Sol estava forte sobre a cabeça dos transeuntes, a bomba-relógio que era a Cidade simplesmente explodiu. Já haviam se passado quase ‘4 dias’ e nada acontecia de diferente. As pessoas iam caindo e dormiam exatamente onde estavam. Não havia energia para dar um passo sequer. Carros perdiam o controle causando vários acidentes nas avenidas, as pessoas dormiam nas escadas rolantes o que gerava uma pilha crescente de pessoas deitadas nos pés delas. O tempo foi passando e, uma por uma, as pessoas iam ficando pelo caminho até que, entre os que dormiam por opção nas suas próprias camas, e os que adormeceram ‘por aí’, sobrou apenas uma pessoa andando na cidade inteira.

Davi seguia pelas ruas, carregando sua mochila de acampamento já cheia. Além do seu saco de dormir, barraca e fogareiro, carregava dentro dela apenas o que precisava: Seu diário de viagens, algumas folhas em branco, um pequeno estojo com alguns lápis e canetas, sem se esquecer de uma carga considerável de comida. Empunhava sua câmera fotográfica, que registrava cada detalhe dessa paisgem única e louca. Dezenas e dezenas de fotografias da Cidade deserta e suas ruas forradas de corpos adormecidos.

Já fazia algum tempo que ele andava. Saíra de casa quando seu relógio marcava 6:35 e não parava desde então, apenas para comer um pouco. Seguia sempre em frente, na direção que o Sol estava, e via as grandes avenidas terminarem em outras igualmente grandes. Muitos passos adiante, muito depois de cruzar o grande anel viário, recentemente inaugurado, que cercava toda a porção de cidade conhecida por ele, e por uma absoluta maioria das pessoas, ele chegava no lugar onde começavam a aparecer as fábricas, com sua névoa densa envolvendo. As coisas não pareciam tão assustadoras, como nas histórias contadas pelo seu ‘mentor’, durante o dia. A luz do sol, juntamente com a névoa produzia um efeito extraordinário. Como se estivéssemos entrando, pouco a pouco, em uma núvem perdida em um dia de Sol. Não havia mas ninguém deitado nas ruas. Não era muito comum pessoas irem até a região das fábricas em um domingo. De fato, não era nem um pouco comum pessoas irem até lá em qualquer dia da semana. Era realmente uma paisagem desoladora. Ao fundo era possível ver as chaminés das antigas usinas de carvão soltando uma fumaça preta, que era o único contraponto à claridade predominande do cenário.

À medida que ele adentrava as fábricas, a luz solar era filtrada por tubos, esteiras, treliças e guindastes – que eram exatamente como há 50 anos atrás, nas descrições do velho Arthur – e formava fachos espessos de luz e faixas bastante fortes de uma sombra embaçada pela névoa. Seus passos eram cada vez mais apagados névoa, até chegar a um ponto em que não era possível ver um palmo adiante. Não era possível nem mesmo enxergar os próprios pés. Davi, envolvido por uma núvem branca espessa, foi obrigado a parar. Olhou seu relógio de bolso, leu 15:42, e, disconfiando da falta de utilidade de um relógio em um dia como esse, jogou-o longe, névoa adentro. O cansaço fisico ja era extremo e mesmo o vigor incessante da sua mente o impelia adiante. De dentro de sua mente começou a aparecer uma colorida, grave e ecoante, tentando convencê-lo a voltar pra casa, onde seus pais, que o amavam, o esperavam de braços abertos. Voltar para sua vida confortável, com todas as facilidades de se viver em uma cidade. A voz o lembrava de seu trabalho, de onde não havia do que reclamar, de seus estudos na universidade, daquela garota que tinha um olhar diferente para ele. As cenas dessa vida eram projetadas pelos seus olhos nas núvens brancas e passavam como num filme. Uma por uma. Rosto por rosto. Cada pequeno detalhe não era poupado, cada pequena alegria. Mas em um momento tudo voltou a ficar claro e as imagens daquela primeira tarde na casa de Arthur insistiam em ser expelidas de seu subconsciente.

As palavras inspiradas daquele que não teve medo de dar o passo derradeiro para o desconhecido vieram como uma bomba em toda aquela teia de ilusões que o cercava. Seus olhos se ergueram e rapidamente se voltaram para o sol, que brilhava alto no céu. O dia insistia em não passar, em não terminar nunca. Nada mais fazia sentido em sua vida agora. Ofuscado pelo brilho direto do Sol em seus olhos ele olhava atentamente para o branco à sua frente. O silêncio imperava. Todo e qualquer som das indústrias ao redor eram completamente abafados. As vozes da sua mente já não diziam mais nada. Em meio ao silêncio um barulho de ponteiros começava a aparecer. Era estranho ouvir isso em um dia em que nenhum relógio estava disposto a andar.

A cada segundo o som ficava mais alto e mais ecoante. O ritmo começava a se impregnar no seu corpo, nas suas batidas do coração e Davi sentia, cada vez mais forte, o sangue correr em suas veias. Essa era a hora. E sem pensar, mas fazendo um esforço incrivelmente grande ergueu a perna esquerda, e seguiu adiante, um passo de cada vez. O brilho começava a ficar mais forte, como flashes voltados para seu rosto. Seus olhos já estavam fechados enquanto suas pernas faziam o que há pouco parecia impossível. Ele contava seus passos, no ritmo dos ponteiros do relógio:

Um…

Dois…

Três…

Quatro..

No quinto passo, o som do relógio ficou mais alto do que nunca. Davi sentiu um vento gelado atingir seu rosto e, automaticamente seus olhos se abriram.

O espanto de ver tal cena fez Davi cair para trás e sentar no chao macio. Estava noite, uma noite escura e fria. O céu estava preenchido de estrelas, de estrelas que ele jamais havia visto. Sob seu corpo, uma grama úmida e macia aparava seu corpo. Sem acreditar, ele tateou o chão em busca de um pouco mais de realidade e, despretensiosamente, sua mão pousou em um objeto frio e duro. Era seu relógio de bolso, que estava funcionando perfeitamente, com seus ponteiros ditando o ritmo.

Esgotado, ele guardou o seu precioso relógio no bolso, estendeu o saco de dormir ali mesmo e, olhando aquele céu noturno cheio de estrelas e com uma lua pequena e brilhante, escondida lá no fim do firmamento, Davi deu um respiro fundo e dormiu. Assim.




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~ por jlavelino em 19/07/2010.

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