Quadros

Os primeiros passos casa adentro  foram lentos, curiosos, com um pouco mais de expectativa que ela  esperava. O hall de entrada estava escuro e o facho de luz que penetrava através da porta apenas para evidenciar um pouco da silhueta do ambiente, e dar uma leve idéia de suas dimensões. Havia um vão de porta no lado oposto, além dele se abria o resto da casa. Era possível ter noção desses espaços que surgiam na penumbra, mas sua forma ainda era um mistério. A parte iluminada do chão se mostrava revestida de uma madeira bastante escura, que dava uma sobriedade muito maior para aquele ambiente escuro.

Assim a Sra. Margarida começou a, por frações de segundo, se apropriar do espaço do pequeno hall de entrada. Seu olhar percorria todos os cantos do seu campo visual, tentando achar algum detalhe possível de ser visto, um detalhe que daria alguma pista do caráter do lugar em que ela estava entrando.

Ela imaginara esse lugar por tanto tempo. Perguntava-se como teria vivido Arthur todos estes anos, pensando, talvez, que ele tenha passado todos estes anos enfurnados nessa pequena casa, não tendo noção de como havia se tornado o mundo lá fora. Mas alguma coisa lá no fundo de sua menta, alguma lembrança escondida no bem no fundo do seu subconsciente, dizia a ela que isso não poderia ser verdade e que ele tinha feito algo mais… Algo fora da sua compreensão.

E como se essa fração de segundo terminasse num relance, as mãos de Arthur alcançaram o interruptor, banhando cada canto do ambiente com uma luz quente, amarelada.

Depois de um breve momento se acostumando com a luz, os olhos da Sra. Margarida se depararam com algo que ela jamais vai esquecer: As paredes cobertas de incontáveis quadros, com cores das mais variadas, formando um mosaico de paisagens indescritível à primeira visada.  As cômodas, mesas de centro, de canto, de jantar, o piano,  toda e qualquer superfície horizontal estavam forradas de porta-retratos, com lindas fotos, produzidas pela antiga câmera fotográfica de seu antigo sogro. Em cima de uma prateleira alta, sobre o piano, estava, entre dois porta-retratos, disposta a dita câmera. Sua grande lente refletia as paredes opostas da sala e o teto, com uma charmosa curvatura, enquadrado tudo em uma perspectiva arredondada bastante curiosa. O estojo das lentes sobressalentes estava logo atrás.

Mais ao fundo estava a pequena saleta, onde haviam três cavaletes, dois deles vazios, e o do meio apoiava uma grande tela, o que a espantou, pois veio à sua mente o fato de que todos aqueles quadros haviam sido pintados lá mesmo.  “Quanta imaginação!” – pensou ela, mas ainda com aquelas memórias profundas teimando a querer aparecer, mas ainda suprimidas pela perplexidade ante a tanta informação nova.

Ela andava lentamente próxima às paredes, admirando cada obra com atenção. Indo inconscientemente em direção à pequena saleta, impelida pela curiosidade, intrigada quanto ao conteúdo do próximo quadro que Arthur pintaria.  Seria mais um bosque verdejante, rodeados de montanhas com neve no cume, talvez com algum animal silvestre passando pelo enquadramento. Ou mesmo uma pequena aldeia. Ele a deixava circular livremente pela casa. Essa era a real intenção de levá-la até lá. Ela estava finalmente abrindo seus olhos, abrindo a sua mente. ‘Acordando’, como ele costuma chamar este fenômeno.

Depois de alguns segundos fitando os cavaletes ‘pelas costas’, ela começa, com passos lentos e curiosos, como aqueles dados ao entrar no pequeno hall de entrada. Tentava não olhar para o conteúdo da tela até estar de frente para ela e poder ver seu conteúdo inteiro. Queria se surpreender novamente – estava gostando da sensação. Ao chegar de frente do cavalete e da tela, piscou demoradamente os olhos, abaixou a cabeça, e, ao abrir os olhos, sentiu um misto de surpresa, dúvida, inquietação, medo.

O quadro era em todo formado por traços despretensiosos. Não era como os outros, providos de uma técnica refinada. Este possuía traços fortes, quase rabiscos. Formavam uma linha de terra, que cruzava horizontalmente o meio da tela. Não havia um preenchimento contínuo dessas grandes massas formadas pela linha, mas alguns borrões acinzentados, marrons bem claros, com um pequeno toque de um azul chumbo. Dessa linha surgia uma silhueta de uma grande cidade. Nas bordas ela era nebulosa, não havia formas muito definidas e, à medida que chegavam à área central, as formas iam se destacando umas das outras, compondo vários prédios. A cidade ia até os limites da tela, mas era clara a intenção de que ela facilmente se estenderia infinitamente, além dos limites da tela, onde só a ‘imaginação’ das pessoas observariam.

Abaixo da terra, das bases dos prédios, saíam grandes raízes, formando uma espécie de rede neuronal, um espesso emaranhado de terminações nervosas, com seus neurônios trabalhando incessantemente. Tudo se conectava, tudo era ligado em um prédio na região central, o mais alto de todos. Como o olho que tudo vê, controlava cada canto da cidade com pulso firme.

No fundo , relógios gigantes apareciam, estes com linhas bem técnicas e esbeltas, como um desenho técnico, grandes engrenagens, com pêndulos, todos denotando incessante movimento. Os grandes relógios todos marcavam 6:30. O conjunto desse sistema formava um circulo perfeito. Que formava como que uma redoma envolvendo a cidade e uma redoma inversa, envolvendo aquele ‘centro nervoso’ como se tudo fosse uma coisa só.

A Sra. Margarida olhava atônita cada um desses detalhes, com uma mistura de sensações, todas elas temperadas com uma generosa dose de medo. Depois de um minuto apenas tentando assimilar tantos sinais, ela vira seu rosto assustado para Arthur, que a olhava do outro extremo da sala. Depois de se olharem por um breve instante, ela toma a frente:

O que significa tudo isso, Arthur?

Arthur, mudo, olhava para ela com um rosto sério de quem está sem palavras. Abaixa um pouco a vista e, depois de uma breve reflexão, olha nos olhos dela:

– Eu ainda não sei dizer. Não sei mesmo…

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~ por jlavelino em 21/07/2010.

2 Respostas to “Quadros”

  1. A cidade está controlando as pessoas que vivem nela!
    NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

  2. esse NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!! foi bem darth vader no final do Episódio 3!! HAHAHAHHA!!

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