Fragmentos #1 – O topo do mundo.

A noite era comprida. Arthur estava sentado imóvel olhando fixamente o quadro que teimava em se fazer inacabado. Sua cabeça já estava cheia destes sonhos loucos e, logo ao sair do elevador, ele acordara.  As noites estavam se tornando uma ladainha que teimava em se repetir incessantemente.

O seu quadro se desenhava a cada noite mais um pouco e nada parecia fazer sentido. Ele teimava em não acreditar nas teorias malucas em que criava ao ver sua obra. E esperava que, em uma noite, finalmente, algum traço desenhado daria sentido para todos os outros e que tudo seria revelado.

Cansado de olhar fixamente para a tela, Arthur foi à cozinha preparar uma xícara de chá silvestre – era o seu favorito – e sentar confortavelmente em sua poltrona na sala de estar e, envolvido na simples apreciação do chá, esperar que estes pensamentos deixem sua cabeça para que ele possa ir dormir novamente.

Era essa a ladainha de todas as noites.

Sentado na poltrona, com uma mão no pires e a outra na xícara, Arthur se detém em um detalhe que passara desapercebido todas as noites anteriores. Logo à sua frente, aberto sobre uma pequena toalha de bordado de lã de tons azulados, o seu diário de viagens. Ele o mantinha sempre aberto, tal como uma bíblia em uma casa de um fiel fervoroso, esperando que um dia ele tenha algo a lhe dizer.

Ao deixar de lado a xícara já vazia e folhear as páginas já amareladas do diário, as memórias invadiram sua mente implacavelmente, sem dar chance alguma aos sonhos. Eles eram pequenos respiros diante a força das experiências contadas alí. A liberdade era plena. A vida ganhava sentido a cada passo dos anos de caminhada, andando por lugares inimagináveis e sempre com consciencia de que tudo aquilo jamais poderia ser tudo. Por um momento aquela consciencia tomava traços de uma certeza absoluta, de uma verdade irrefutável. Foi um momento glorioso. E tudo estava anotado nas páginas amareladas. Ao ver o título das anotações, teve certeza de que aquele momento foi tudo aquilo que a memória o mostrava e muito mais.

“O Dia Em Que O Mundo Coube Nos Meus Olhos

É impossível que você, que lê estas páginas, irá perceber a dimensão do que é isto aqui. A não ser que você seja eu. Tudo ganhou sentido. O que era apenas um sentimento se tornou verdade. Verdade sólida como esta pedra em que estou sentado. À proposito, estou sentado em uma pequena pedra escura, em meio a tanta neve, no cume do monte mais alto do mundo. Foram 3 dias e meio de caminhada até aqui mas a visão compensa cada gota derramada de suor.

Daqui é possível ver tudo, cada passo que dei até chegar até aqui. Voltando montanha abaixo, passando pelos vilarejos, pelos campos, florestas, cidadelas, cruzando os rios, os vales que eles formavam, até chegar lá. Ali estava ela. Eu ainda a via imponente, absoluta. Mas, pela primeira vez, eu a vi finita. Todo o seu desenho era até obvio olhando daqui de cima. Era apenas um borrão marrom, mas eu conseguia vê-lo pulsando com toda a ‘vida’ que acontece alí. Ela acabava. Era inacreditável, mas ela acabava mesmo! E era incrivelmente pequena diante de tudo o que eu consigui ver daqui, o que é praticamente tudo o que a curvatura do planeta me permitiu.

E como é belo tudo isso! Está sendo ainda, na verdade. A liberdade é maravilhosa! Todas as minhas antigas certezas e ambições vieram abaixo. E eis que se faziam novas todas as coisas. Tudo o que eu acreditava ser o mundo e o universo se tornou tão pequeno. Tudo o que eu acreditava ser tão absoluto, tão opressor, tornou-se tão frágil.

Como a Cidade. Nada mais é como antigamente.”

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~ por jlavelino em 02/08/2010.

Uma resposta to “Fragmentos #1 – O topo do mundo.”

  1. “O dia em que o mundo coube nos meus olhos”
    Muito lindo o título dessa entrada do diário. Espero ver mais trechos como este. ^^

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