Despertar

“Uma cidade feita de medos…”

Arthur ficara pensando nessa frase durante dias. E eles passavam devagar, dando a entender que o universo, ou seria a Cidade, ou seria o dono daquela voz do sonho. Parecia que era esta a hierarquia que se organizava. E tudo isso viravam linhas de um quadro monstruoso. Os traços fortes. A Cidade crescia na tela como crescia fora dela.

“Uma cidade feita de medos…”

Repetia ele repentinamente. Já faziam horas que estava na saleta, com todas as janelas fechadas. Sua imaginação percorria espaços jamais pensados antes. As coisas se desenhavam como ficção científica. Como se a Cidade tivesse literalmente ganhado vida e dominasse tudo. Ou seria só um momento de loucura. Deveria ser. Ele sabia que havia mais, muito mais que a Cidade no mundo. Ele pensava em Davi, ele deveria estar quase no mar a esse ponto.

Como era belo o mar. Este sim era maior que a Cidade. O mar infinito. O mar de tantas faces e de tantos olhares. Às vezes aquele olhar hipnótico que te chama para o fim, para o fundo, para fazer parte do mar. Às vezes aquele olhar que te faz virar as costas para nunca mais voltar. E de fato Arthur jamais teria voltado. E hoje estava de volta na Cidade. Parece que o mar também é feito de medos. As ondas são pequenas ou grandes de acordo com o medo que temos delas.

Mas quando vamos de encontro às ondas elas vemos que realmente elas não são tão grandes como o medo que temos delas, por maiores que elas sejam.

“Um mar feito de medos…”

Sim! Todos os seus pensamentos foram varridos por aquele mar. Ou aquele medo do mar. Ou aquele medo de nunca mais voltar. Ou aquele medo de se perder pra sempre sem a…

Agora tudo fazia sentido. O mar sabia de tudo! Como ele poderia ir avante sem ter voltado para buscar quem realmente importa?

Arthur se levantou repentinamente de sua banqueta e as tintas que estavam em sua palheta não eram mais suficientes para pintar o que ele pensava. Chega de pintar quadros! Chega de tomar café todas as manhãs olhando aqueles quadros. Chega de abrir uma página aleatória de seu diário a cada dia para que as traças lessem. Chega de esperar outro Davi. Ou o mesmo Davi. Talvez seu messias jamais voltaria e ele estaria preso naquela prisão de lembranças até que sua memória estivesse enterrada em um quadro inacabável. Um quadro feito de medos. Que ninguém jamais veria.

Tudo o que ele pode fazer agora foi arremessar toda sua tinta azul naquele quadro e afogar todo aquele pesadelo naquela tela. Pegou seu casaco mais espesso, pois o frio estava forte lá fora. Pegou sua mochila, pegou a Sra. Margarida pelos braços, deu-lhe um casaco e disse apenas uma frase:

– É hora de irmos!

Andaram rapidamente até a porta da frente e Arthur não acreditava em seus olhos. A Sra. Margarida muito menos. Eles se abraçaram firmemente, olharam firmes nos olhos uns dos outros e se certificaram de que tudo era realidade. Seus corações batiam rápido, e aceleravam cada vez mais. Cada segundo mais. Cada décimo, centésimo, milésimo… E, por um momento tudo parou. Ambos seus pés estavam afundados em uma relva confortável, macia e quente. O sol batia forte no rosto deles e não havia nuvem alguma no céu. Ambos, sem mover o olhar tiraram os casacos e os deixaram cair livremente na relva e sentiram o calor do sol em suas peles já tanto vividas. Os cabelos morenos da Sra. Margarida livremente balançavam com a brisa quente que soprava do norte. Quando os batimentos voltaram ao normal e quando os olhos se acostumaram com a luz viram um campo verde que se extendia por todas as direções. Não havia mais ilusão para eles dois. Arthur tinha medo de olhar para trás e ser puxado de volta para a sala de sua casa e nunca mais ver aquilo novamente. Mas seus medos não foram tão grandes como a vontade de, com o olhar dizer adeus para todo aquele lugar. Ele se virou e a casa estava lá sozinha. Ao fundo, bem distante, era possível ver a Cidade simplesmente acontecendo.

A porta estava aberta e a sala estava escura. Todos os seus quadros estavam lá, esperando, em vão, que Arthur desistisse de deixá-los. Mas era tarde demais. A idéia de que era a hora de partir já tinha se alastrado por cada um de seus neurônios e era impossível voltar atrás. Mas seu olhos custavam a deixar aquele cenário tão familiar. Permaneciam imóveis, esperando que tudo sumisse por si. Ou que esse ambiente o abraçasse levando-o de volta para ‘casa’.

Eram apenas medos Arthur, apenas medos…

Com passos curtos, emergiu da sombra uma figura alta, vestindo um terno preto bastante elegante, com sapatos igualmente pretos, brilhantes. Seu cabelo era negro, curto jogado para o lado, bastante liso. O rosto limpo sem barba nem bigode. Seus olhos eram estreitos, castanhos, tangidos por uma sobrancelha bem delineada. Mas seu rosto não parecia sério. Pelo contrário. Olhava Arthur como se fossem velhos amigos.

– Para que olhar tanto? Ou será que você não entendeu o que é tudo isso. Ou quem eu sou?

Brotaram do solo uma pequena mesa de praça, com duas cadeiras de metal. Na mesa, uma xícara apareceu, repleta com um capuccino que exalava um cheiro maravilhoso. Os dois se sentram e no momento tudo em volta parou. Os sons, os movimentos, animais. Até a brisa quente que vinha do norte cessara. E Arthur simplesmente ficou abismado com tudo aquilo. Com a maneira que ele havia chegado lá e feito tudo isso. Será que ele seria…

Não Arthur, eu não sou Deus. Nem perto disso. Pode me chamar de Arquiteto. Sou tão mortal como você, mas as semelhanças acabam por aí.

A voz definitivamente era conhecida. Mas o espanto impedia Arthur de progredir em qualquer linha de pensamento ou de raciocínio. Estava atento apenas naquela ‘pessoa’ sentada à sua frente, tomando lentamente o capuccino.

– Você realmente entendeu o que você ouviu no terraço naquela noite. A cidade é feita de medos, mas é tão sólida quanto os seus medos. Ela é tão real quanto os seus medos. Ela é imperfeita como os medos de qualquer um de nós. Eu a criei a partir dos meus próprios medos. Todas elas são assim. Mas esta nossa em particular. Minha. Esta sim foi uma obra prima. Mas saiu de controle e meus medos já não mais eram suficientes. E ela começou a se apropriar dos medos de todos. Foi crescendo cada vez mais até ficar virtualmente infinita.  Tudo o que foi construído em pedra morta pelo homem é ridículamente pequeno ao do que eu construí com simples pensamentos e idéias.

E então deu o gole derradeiro na sua xícara e levantou-se da mesa, chamando Arthur com ele para dar uma volta. Andaram um pouco e olharam a cidade ao longe. Inerte. Arthur percebia o olhar do Arquiteto umedecer. Não era apenas tristeza, mas, talvez, um pouco de saudade dos dias áureos de sua criação. Ele hoje era um monstro e restava-lhe apenas uma alternativa. Dar pistas. Uma a uma. Para uma pessoa de cada vez. Talvez um dia os medos a alimentá-la não sejam mais tantos.

Só queria dizer uma última coisa. Seu último quadro é fantástico. Deixarei-o lá. Como deixarei a casa lá. Agora vai que o Mar te espera. Ele é uma criação maior que eu. Talvez até seja Deus que tenha o feito por sí mesmo. Infinito.

Com seus passos largos, característicos seus, o Arquiteto voltou para a velha casa de Arthur e, sem hesitar, cruzou o vão da porta de entrada e fechou lentamente a porta. Quando ouviu-se a chave dar a primeira volta no lado de dentro, Arthur sentiu uma brisa quente em seus cabelos. Margarida andou ao seu encontro e os dois se olharam tentando acontecer o que teria acontecido. Olharam para a casa novamente mas ela não mais estava lá. Havia voltado para seu lugar. Não era mais sua, nem de seus medos. Deram as costas para tudo aquilo e seguiram em frente. Havia apenas uma elevação a frente. Um grande morro com uma frondosa árvore ao fundo. Suas folhar voavam com a brisa que vinha do norte e se espalhavam pela relva. Tudo era convidativo.

Andaram por algum tempo até chegar a uma distância suficiente para perceber que havia uma pessoa sentada aos pés da árvore. Usava um chapéu que cobria seu rosto pois, aparentemente, ele dormia profundamente já há um bom tempo. Quando estavam há uns quinze metros da árvore, a pessoa se levantou. Ainda com a cabeça baixa. Ainda era irreconhecível por causa da sombra. Mas ela ia andando na direção deles. O Sol estava cada vez mais forte por trás dela e a sua sombra formava um facho de penumbra à sua frente. Sem dar pista alguma de quem poderia ser, apenas chamou os dois para irem à sua direção.

Arthur e Margarida o seguiram lentamente e, ao,passar das raízes da grande árvore, seus olhos foram banhados um uma quantidade imensa de luz e, logo após, de azul. O Mar estava lá. Diante dos seus olhos incrédulos. Margarida nunca havia visto nada como aquilo e Arthur jamais sentiu-se tão chamado por seu olhar. Agora sim estava pronto para ir.

Já recomposto da grandiosidade do encontro inesperado com o Mar,  Arthur olhou para o lado e não havia mais ninguém. A pessoa já havia tomado seu caminho falésia abaixo, em uma pequena escada de madeira, que acompanhava sua encosta. Não havia mais para onde ir, então o casal seguiu seus passos.

A escada terminava em um pequeno trapiche que levava mar adentro.Próximo pedra havia uma pequena porção de praia ainda, uma vegetação rala nas partes mais secas e, em uma pequena gruta encravada na rocha havia uma pequena capela, com algumas fotos de mulheres, crianças, senhores e senhoras. No outro extremo do trapiche se encontrava um barco pequeno com velas brancas esvoaçantes, como se fossem materialização do próprio vento. A pessoa da árvore já estava dentro do barco esperando por eles dois. Mas havia uma coisa a ser feita antes de irem algo que daria sentido a tudo isso.

Arthur colocou sua mão no seu bolso direito e, do fundo, tirou um pequeno anel. Era de ouro, com uma pequena pedra avermelhada em um ponto. Estava escrito Margarida em letras bastante trabalhadas na parte interior do corpo do anel.

Acho que já se passaram quase 60 anos daquele dia. Mas não acho que mudei de idéia. Há muitos, muitos anos atrás ja estive aqui, na beira do Mar. E voltei. Voltei para a Cidade. Voltei para o lugar sujeito aos mais sutis caprichos dos meus próprios medos. Voltei pra te buscar. Só pra te buscar. Desde que nos encontramos novamente, naquele dia que teimava em não terminar, eu comecei a te mostrar o caminho que eu havia andado. E você se maravilhava em ver cada novidade. Eu era feliz te mostrando tudo aquilo. Mas agora é a hora de irmos para lugares onde nenhum de nós jamais foi. Vamos partir para uma viagem inédita. Escrever novos diários. E nunca, jamais voltar para aquilo que eram apenas medos.

Margarida sem hesitar, confirmando tudo isso, ergueu sua mão esquerda e vistiu o anel. E então após um longo olhar sem pensar, caminharam lentamente em direção à água. O vento norte trazia respingos que os refrescavam, aliviando a sensação de calor sob aquele Sol forte que brilhava sobre suas cabeças. Ao chegarem ao barco, uma jovem menina os recebeu. Era a pessoa que estava os guiando até aqui. Era jovem, de uns catorze ou quinze anos. Sem dizer uma simples palavra, ela deu as costas e entrou na cabine do barco. E, antes que eles pudessem pensar em embarcar, ouviram passos pesados vindos da cabine.

Logo a menina subiu a pequena escada de volta. Seguida de uma pequena criança, um menino, aparentemente com seus oito, dez anos vividos. Após subiu uma mulher. Alta, com olhos penetrantes. Provavelmente a mãe das duas. Os três olharam para o casal de convidados e, em seguida para a porta da cabine, de onde se ouviram mais passos. Estes leves e tranquilos. Passos de uma pessoa que já se acostumou a andar para viver e viver para andar. Passos despreocupados. Usava o chapéu que a primeira menina usava em seu encontro, lá no alto da falésia, diante da árvore. Suas roupas eram simples. Chinelos nos pés, uma simples calça clara acima. Uma camisa polo, com seus botões abertos pelo calor. E ao chegar no rosto…

Bem vindo a bordo, Arthur!

O rosto de Davi brilhava. Tantos anos haviam se passado para ele, mas ainda era impossível dissociar da imagen singela daquele jovem entregador de cartas tempos atrás.

-Vamos Arthur! Para as águas mais profundas. Não vamos para a direção do pôr do sol. Temos ainda muito tempo para navegar.

E logo o vento deu os primeiros impulsos no barco, que seguiu para longe das felésias em direção de algo que nenhum deles jámais havia visto antes. Nem ao menos imaginado.

De fato a antiga casa de Arthur voltara a seu antigo lugar. Estava lá, encrustrada entre aqueles dois grandes edifícios. Sua porta estava aberta. Sempre aberta. E sempre. Sempre estava lá, sentado nas banquetas da saleta, admirando a tela estendida no cavalete, o Arquiteto. Em suas mão, o antigo diário de viagens. Ele o lia atentamente, palavra por palavra, admirado com a beleza das pequenas criações. A cada página lida um pensamento lhe ocorria inplacavelmente: “Como seria maravilhoso ler o novo diário…”

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~ por jlavelino em 17/08/2010.

Uma resposta to “Despertar”

  1. É o fim? Não da aventura, disso tenho certeza, mas da história do blog? ._. Diga que não, diga que não!
    Foi muito bonito esse texto… Não consigo pensar em palavras melhores para descrevê-lo. Estou de boca aberta.

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