Mar…

O sol insiste em brilhar forte. Já são dias sem trégua. Os raios de luz trazem um brilho como que poético nas escassas gotas de água que caem do pequeno cantil de couro na boca das crianças. Suas sombras são seu único abrigo enquanto os passos não os levam a lugar nenhum.

Muitos passos haviam atrás deles, muitos deles já escondidos pelo tempo. Tempo que a cada dia se tornava mais mole. O tempo se dilatava livremente diante dos seus olhos. Os dias eram eternos. E por mais longas que fossem as noites, elas nunca eram o suficiente. Parecia que o tempo escorria por entre os seus dedos e tudo o que havia para trás não existia mais. Nem o menos vestígio.

Tudo era um deserto. O céu era um deserto. O mar era um deserto. A água salgada tornava tudo mais seco.

Davi, sem muitas esperanças olhava para os seus mapas. Mas o mar era sempre um mistério e os levava para direções que não se podiam medir. O mar gosta de pregar estas peças. Seu temperamento era muito como o da Cidade. Mas havia muito mais no mar, uma sutilidade, um encanto, uma ‘malícia’ que a Cidade jamais teria. E invejava. Suas ilusões grosseiras eram movidas por uma fome de sempre ser maior. Movidas pelo sentimento de ter sido abandonada por seu criador. Sua única saída era se alimentar dos medos dos homens. Crescer nos medos dos homens. Lá ela poderia ser infinita… Infinita como o mar. Como o mar realmente é. Por sua natureza.

Só havia uma pessoa que entende o mar. Ele o criou exatamente assim. É sua obra prima. Só o céu pode se comparar ao mar.

E, com suas lábias e suas malícias, com suas mentiras e suas verdades, o mar continuava levando o pequeno barco. O jovem Davi segurava o timão com todas as suas forças, lutando incansávelmente contra o mar. Ele sabia, e sempre fazia questão de repetir para todos no barco, que tudo que o mar queria era enganá-lo. Que o mar queria que eles ficassem para sempre nele, perdidos.

Mais um dia se acabava e uma névoa espessa cobria tudo. E, como todas as noites. Davi baixou a vela, fechou todas as aberturas e ja estava pronto para entrar e dormir um pouco. Descansar para mais um duelo ingrato contra o mar.

A luz já havia afundado na névoa e a escuridão era quase dominante no olhar frustrado de Davi quando ouviram-se passos no convés.

“Vai dormir Davi. Deixa que eu termino as coisas por aqui. Queria ter um tempo a sós com o mar.”

Arthur reclinou-se sobre o guarda-corpo que delimitava a área do timoneiro. Era de metal. Bastante brilhante durante o dia. Davi estranhou sua presença lá, pois já há alguns dias ele estava ‘preso’ no seu quarto. Sozinho. Somente com seu diário de viagem.

Incrédulo, Davi respeitou o pedido do senhor e foi para seu quarto. Precisava mesmo de um descanso. Parecia que o mar estava mais pesado aquele dia. E a escassez de água potável já era muito sentida. Arthur segurou o leme logo que ele foi solto pelo jovem. Ele segurava firme, enquanto Davi descia pelo convés e fechava a porta da parte interna do barco.

Ao ouvir a porta se fechar, Arthur imediatamente soltou o leme e desceu para o convés inferior. Próximo à borda ele se sentou e olhou fixamente para o mar. Ficou por alguns minutos apenas olhando. Sem severidade, sem malevolência. Apenas olhava, tentando entender um pouco dos seus mistérios.

Depois de cansar um pouco, ele subiu de volta para o local do timoneiro. Lá havia um pequeno banco estofado. Ele deitou-se lá e olhou para o alto, para a névoa.

Logo a luz de uma pequenina estrela conseguiu transpor a névoa e chegou aos olhos de Arthur. Depois vieram outras. O céu se iluminava, e a névoa com ele. Ele estava maravilhado com a resposta do mar. Com esta visão ele adormeceu.

Em seus sonhos o barco chegou a uma pequena ilha durante a noite. Com uma pequena lanterna, Arthur desceu do barco e foi andando pelas areias grossas da pequena praia. Pouco a pouco as estrelas apareciam em meio à neblina e Arthur percebeu como era pequena a ilha. Além da pequena praia, onde estava o barco, havia apenas uma grande pedra no centro e, construído nela, um grande farol desativado.

Curioso Arthur subiu pelas pedras até chegar à porta do farol. Entrou e chegou em uma grande escada que subia para a escuridão. No alto havia apenas uma porta, sem nenhuma indicação, nem nome, nem nada. Ao lado dela havia um grande disjuntor empoeirado, com uma caprichosa teia de aranha entre ele e a parede.

Ele, depois de muita hesitação baixou o disjuntor e um barulho forte ecoou porta adentro. Assustado ele desceu correndo as escadas. Saiu do farol e correu pedra abaixo. Olhou hesitante para trás e viu um facho forte de luz saíndo do topo do farol e adensado pela névoa. Diferentemente de um farol ‘normal’, sua luz permanecia estática. A visão desta luz indo para o infinito o deixou muito impressionado com tudo o que havia visto.

E em um instante tudo sumiu.

Ele acordava jogado no convés e antes de fazer qualquer esforço para se erguer, ele abriu bem os olhos e não podia acreditar no que estava vendo. Um facho de luz que ia até o infinito. Na extremidade visível estava um grande farol, construído sobre uma pedra em uma pequena ilha.

Não se demorou muito admirando e logo virou o barco para a direção da luz. E seguiu viagem.

Quando o sol nasceu, Davi subiu de volta para o convés e sem entender muito o que estava acontecendo. Aproveitou a prontidão de Arthur ao segurar o leme e deixou que ele continuasse o serviço. A noite havia sido longa e cansativa. Um longo pesadelo, com ondas cada vez maiores e mais fortes e heroicamente ele seguia pilotando o barco, enquanto suas forças permitiam, por através das ondas. Ele mal queria saber de mar, muito menos de pilotar. Logo em seguida, desceu de volta para seu quarto.

Ao ouvir a porta fechar, Arthur soltou o leme e foi até a beira do barco e olhou para o mar. Risonho.

“Realmente você é tudo o que dizem, nem  mesmo o arquiteto entenderia.”

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~ por jlavelino em 27/08/2010.

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