A contadora de histórias

Em muitos lugares vem se espalhando boatos sobre uma contadora de histórias. Em todo canto da Cidade é fácil de perceber os sinais. As pessoas pessoas se agitam com qualquer novidade sobre ela – na verdade, qualquer notícia sobre alguém que diz ser de ‘fora’ ja era tratada com uma certa dose de suspense e depois eram todas desmentidas.

Segundo a boca do povo, a tal ‘contadora de histórias’ gostava de ser discreta, mesmo que suas histórias não o fossem e denunciassem algo de novo no ar. Ela sempre aparecia nos locais mais improváveis. Uma das suas primeiras ‘aparições’ foi num pátio de escola, contando histórias para as crianças no intervalo de suas aulas. Sempre aparecia nas praças, contando histórias para alguma pessoa sortuda que estivesse sentada ao seu lado em um dos bancos. E de ouvinte em ouvinte, suas histórias eram espalhadas, mudadas – como geralmente acontece com as boas histórias. Lugares distantes, lugares ao sul, os causos que acontecia em casa, seus ‘bichinhos’ de estimação. Tudo virava boas histórias. De onde ela dizia que vinha havia uma grande floresta, pássaros brincavam na janela de seu quarto. Hora ou outro um símio dava as caras por lá, apanhava algo próximo à janela, como uma pena, e fazia charme para conseguir uma boa barganha , talvez conseguisse um belo pedaço de bolo ou torta.

Em um dos últimos dias do verão, mas com uma bela pitada de outono, tudo parecia normal. Era quase meio dia e em suas salas de aula as crianças ja guardavam seu material em suas mochilas e ansiosamente olhavam para os relógios – presentes em todas as salas de aula, sobre o quadro negro. Quando todos os ponteiros se juntaram foi a correria de sempre. O sinal tocava alto e as crianças saíam de suas salas e iam correndo para fora. Uma destas crianças era Pedro. Ele corria rápido para casa, não se distraia com nada, nem com ninguém. No caminho de casa, passando por uma das ruas que ladeia a Praça do Pinheiro, ele percebeu um detalhe que não pode deixar de parar e tentar entender.

Em meio à multidão, que passava se empurrando na larga calçada, havia uma mesa, com uma pessoa sentada, expressivamente alheia a tudo que estava acontecendo. Parecia estar feliz enquanto olhava para algo na mesa, que emitia um certo brilho em seu rosto. A luz que vinha deste objeto era inconstante e em cada momento de fulgor maior, o sorriso da pessoa se tornava mais brilhante.

Pedro parou e ficou igualmente alheio à multidão. Depois de espiar por um tempo, criou coragem e decidiu chegar perto. Olhando com mais atenção, distinguiu os traços femininos do rosto iluminado. Seus olhos brilhavam com a luz trêmula que vinha do centro da mesa. O corpo dela bloqueava a visão do menino, que esticava o pescoço para tentar descobrir de onde vinha este lindo brilho. Olhou as roupas diferentes que ela usava. Uma capa bege, meio desbotada cobria parte de seu corpo, mas ela possível ver uma faixa de cetim preto em sua cintura e seus cabelos bem compridos. Brincos de argola com pedras amarelas com belos rajados marrons, que combinavam com seu cabelo. Na faixa de cetim estava presa uma pequena bolsa de pano, fechada com uma corda delicada e uma pena.

Sua aparência intrigava o menino em cada detalhe. Ele começou a imaginar que poderia ser a tal contadora de histórias. “Por que não?” – pensava ele, enquanto chegava perigosamente próximo a mulher, que, com qualquer movimento brusco, notaria sua presença. Ele controlava a respiração cada vez mais, chegando a prender totalmente, quando chegou a um metro e meio dela. Agora navegando em sua imaginação, ele já conseguia se ver sentado naquela mesa, olhando para aquela luz trêmula, talvez proveniente de um artefato adquirido em alguma de suas viagens, enquanto ouvia uma deliciosa história sobre algum lugar longínquo. E quando se deu por si, a luz no centro da mesa oscilou forte e se apagou. A mulher levantou da mesa e desapareceu no meio da multidão.

O menino ficou sem ação. Como perdera esta chance! Ele olhava atento para tentar achá-la e sair correndo em meio a multidão. Mas não conseguiu achar um traço sequer.

Voltou, então, o olhar para a mesa. Nela havia um prato simples de vidro, com um pedaço de bolo de cenoura com uma apetitosa e farta cobertura de chocolate. Sobre o pedaço de bolo, se mantinha em pé uma pequena vela apagada. Sem entender muito bem, e com um sentimento amargo de desilusão, Pedro virou-se e continuou seu caminho para casa.

Seria, afinal, verdadeiros estes boatos sobre a tal mulher. Será que realmente existia uma Contadora de Hisórias? E se existia, teria ela viajado por vários cantos do ‘lado de fora’?

Quem sabe?

Mas é bom demais acreditar que sim. Isso diminui um pouco a imensidão e a onipotência da Cidade. Nos faz sonhar em lugares maravilhosos e até então impossíveis em nossas pequeninas mentes. Dentro da imensidão dela, teria espaço para todas estas histórias tomarem forma e, quem sabe um dia, nos tornemos contadores de histórias.  Mesmo com tanto minstério e com tudo o que vejo acontecer nesta Cidade, ainda teimo em acreditar que sim. Em algum lugar está a tal contadora de histórias. Talvez existam mais de uma. Mas o que importa é que eu acredito.

 

PS – Parabéns Cinthia! Muitas histórias ainda estão por vir!

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~ por jlavelino em 04/03/2011.

Uma resposta to “A contadora de histórias”

  1. Fiquei emocionada agora! Um parabéns desses, vindo de outro contador de histórias… estou sem palavras! (Ou quase… é impossível deixar uma contadora de histórias completamente sem palavras. ^^)
    O melhor que posso fazer é agradecer de coração. =3 Amei o texto! A cada parágrafo que eu lia meu sorriso aumentava mais uns 5cm pra cada lado.
    E sim, muitas histórias estão por vir, mas espero ver ver mais histórias suas. =D Senti falta da Cidade e seus personagens nos últimos meses. Não seja mais malvado assim com seus leitores. 😉

    Beijos e abraços de uma amiga sinceramente emocionada! =]

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