O escultor

E a chuva de verão, mais uma vez, chega. E as gotas de água violentamente acertam os grandes vidros da janela da sala de estar. E de lá ele observa tudo. E a sua sombra fica nítida no chão de madeira clara cada vez que um raio aparece forte por entre as núvens.

Nas calçadas e nas praças, guarda-chuvas de todas as cores dominam a paisagem quando bate seis horas da tarde e as pessoas, apressadas, voltam para casa correndo. O trânsito pára e as ruas ficam superlotadas até o Sol se pôr. Então as pessoas somem das ruas, os carros andam tranquilamente, mas a chuva permanece a mesma. Um gato pingado aqui, outro acolá, e a Cidade dá seus ultimos suspiros de mais um dia . E sob a luz fraca e amarelada de um abajur alto, ele continua a olhar, mas já é hora de sair.

Sempre elegante, com seu terno preto impecável, sapatos igualmente pretos e uma camisa branca, ele pega as chaves da porta de casa em um pequeno móvel próximo à saída. Desce o elevador, pensativo, mal ligando para os seus reflexos, também pensativos. Ao sair, cumprimenta, simpático, o porteiro da noite e sai.

Ainda sobre o degrau que o separa da calçada e protegido da chuva por uma pequena saliência na fachada que emoldura o portal de entrada para o edifício, ele fica estático, vendo a chuva forte, rigorosamente vertical devido à falta de vento, cair a poucos centímetros de seu rosto. Ouvia atentamente o barulho forte do impacto das gotas grandes com o piso duro da calçada. Ao dar o primeiro passo para dentro fora do abrigo a chuva balbuceou e recuou e a pés enxutos ele atravessou a rua e seguiu seu caminho em diração ao centro da cidade.

As pessoas cabisbaixas em baixo de seus guarda-chuvas mal percebiam sua passagem enquanto ele avançava pelas avenidas largas da cidade, ou pela sua completa preocupação com seus próprios problemas, ou pela pura e simples alienação, ou pelo fato de o breu de suas vestes se misturasse tão bem às sombras em uma quase-noite sem estrelas (que raramente apareciam). Seu terno não chegava a ser totalmente preto, mas de um tom bem próximo de cinza escuro, caprichosamente estampado com linhas verticais bem finas. Seus sapatos, estes sim eram pretos, cuidadosamente engraxados, brilhantes, com um pequeno salto de madeira, que dava toda a elegância para o par de peças. Seus olhos pareciam bastante interessados nos detalhes de cada edifício que passava ao seu lado, como se, de tanto olhar, já conhecesse cada um. De-fato os conhecia sim. Ele é do tipo detalhista.

Olhando com o seu característico cuidado para as fachadas à sua frente, encontra algo que nunca tinha visto antes. Era uma pequena casa de tijolos aparentes, com lindos detalhes em madeira esculpida. Tinham formas de flores das mais variadas, obviamente um trabalho de um habilidoso escultor.

Cansado do suspense gerado pelos detalhes, deu um passo atrás, e logo depois mais um.

No final do segundo passo, ergueu os olhos para ver o todo, pela primeira vez, e viu que não era uma casa, mais sim uma pequena loja. Uma vitrine, de vidro emoldurado pela madeira elegantemente talhada. Sobre a porta, e munido de detalhes que condiziam com o resto, havia uma pequena placa perpendicular à parede, daquelas presas com pequenas correntes a um suporte metálico que a fixava na parede de tijolos (o suporte metálico era igualmente rebuscado).

A loja ainda estava aberta, sua porta iluminada pela luz amarela de uma lâmpada de sódio de um dos postes, então sem exitar, ele entrou na loja e já ouviu um pequeno sino que o entregava. Tantos detalhes novos o intrigavam enquanto ele observava minunciosamente o ambiente mergulhado em penumbra.

O silêncio foi quebrado apenas quando um jovem rapaz saiu de uma porta. Usava roupas simples, de trabalho, e em uma das mão tinha um pequeno cinzel e na outra um objeto que não era possível ser decifrado ainda nem por ele próprio. Ao acender a luz tudo se revelou. Estava cercado por pequenas estatuetas de madeira esculpida e pintada a mão. Haviam estatuetas de pessoas, de lugares, réplicas de prédios da Cidade.

“O que deseja, senhor” – Perguntou o homem?

“Apenas fiquei interessado na riqueza de detalhes! Foi você que os fez? – Pergunta o visitante enquanto passa os olhos por todas as pequenas obras enquanto o jovem acenava afirmativamente com a cabeça.

O visitante estava, como criança, encantado com tantos bonecos de madeira recheados de expressões diferentes. Analisava inocentemente uma por uma. Até que uma chamou sua atenção . Era uma árvore esculpida com proeza. Era maior que as outras estátuas e a riqueza de detalhes tirou qualquer dúvida. Ele conhecia esta árvore, mas com toda a certeza. Havia um pequeno menino sentado sobre as suas raízes, parecia que esperava por alguém, olhando para o horizonte.

Vasculhando suas memórias longínquas, ele finalmente lembrou-se, virou-se para o jovem escultor:

Quando foi que você saiu?” – Perguntou?

O rapaz, abaixando os olhos, disse que não sabia do que ele estava falando. Sentou-se em sua pequena mesa e voltou a esculpir o pedaço de madeira que segurava.

Indignado o visitante puxa uma cadeira para próximo do escultor e, fazendo pressão para conseguir a resposta que esperava, perguntou novamente:

Quando foi que você saiu?”

Novamente ignorado pelo rapaz, ele subiu a voz e se aproximou cada vez mais do escultor. Perguntando mais e mais.

Quando foi que você saiu?”

“Como foi que você saiu?”

“Onde você viu a árvore da estatueta?”

“E, por Deus, POR QUÊ VOCÊ VOLTOU E SE ESCONDEU AQUI?!” Esta última já aos berros, se segurando para não dar um belo tapa na mesa de trabalho.

A última pergunta fez parar o que estava fazendo, segurando ambos, madeira e cinzel, com as mão trêmulas, e respirar fundo. Não sabia o que responder. Só conseguiu organizar simples frases:

“Como você sabe de isso?! Você andou me seguindo por aí?! Não fiz nada de errado!” – Respondeu com medo.

Nunca te segui e nunca quis te ameaçar! Só que conheço tudo nessa cidade! Cada mínimo detalhe! Sei muito bem o que eu fiz e o que não fui eu que fiz! E tenho certeza que esta árvore fica lá fora… Sobre a última colina, antes de chegar no mar.

Com estas palavras o jovem largou as ferramentas de trabalho no chão e pasmo olhava fixo para seu interlocutor. Não sabia, agora, nem o que pensar. “Como assim ‘eu que fiz’? E quem é ele?!” Pensava para si, sem chegar a conclusões concretas. Seria ele Deus, com seus muitos disfarces para testar nossa fé, ou mesmo vindo nos julgar. Não sabia de nada. Não sabia se era alguém a quem ele deveria temer. Não sabia se deveria contar tudo, ou mentir e inventar algo mirabolante, mas nada lhe ocorria. Estava com o coração se apertando dentro do peito e com os nervos a flor da pele e, mas, mesmo assim demorou a ceder ao olhar frio e profundo que o encarava estático.

Por algum motivo, esta resistência toda só fazia o ‘criador’ querer mais e mais as respostas. Tinha esperança que fosse uma pessoa forte, uma pessoa que  poderia fazer alguma coisa. E isso tornava o seu olhar, a cada momento, mais faminto pela resposta. O olhava mais firme. Como um olhar de pai, que sabe que o filho está escondendo algo.

Ficaram os dois se encarando por minutos a fio, se piscar ou pestanejar. Sem mover um músculo sequer. Mas no final, o medo venceu.
“Não sei de nada, tudo isso foi só um sonho” – O rapaz não sabia mentir. Mesmo – “Nunca saí destas ruas, deste bairro, não sei de mais nada”

Realmente não convencido com o que o rapaz contou, o homem continuou com seu olhar fulminante direcionado para os olhos agora fracos do rapaz. Ele precisava de alguma pista, algum sinal, qualquer coisa. Menos uma mentira tão mal contada. Mas sentia que a fraqueza ia tomando os olhos do jovem escultor. Os seus olhos tremiam, e marejavam. Ele piscava com força. Foi apenas uma questão de tempo até que, depois de muita relutância, uma pequena lágrima escorreu pelo rosto do rapaz. Era tudo que o seu observador precisava.

Foi o mar, não? Ou a imensidão do mundo? Por que ficou com tanto medo?” – Havia achado a ferida aberta.

“Enquanto não tiver nada, não vou ter nada a perder.
Enquanto não sonhar ou tentar alguma coisa diferente, eu serei imune à decepção.
Eu só quero ser feliz aqui, com minhas estátuas, com o mundo que EU posso criar
. Jamais seria livre sem isso

O ouvir estas palavras e espantado com tamanha pequenês de espírito, o Arquiteto se levantou e sem dizer uma palavra sequer virou-se e foi embora, mal se preocupando com a chuva que ainda caía  forte, sempre a poucos centímetros de seu rosto.

Seguia escondido na penumbra da noite, sempre em frente, se perguntando tanta coisa. Tentando juntar os pontos. Já a três quadras adiante, uma explosão e uma luz forte voltaram, novamente, sua atenção para trás. Ao virar, um carro preto, daqueles sedãs grandes, passa correndo fugindo da polícia. Ao se virar novamente, viu o fogo consumir completamente a pequena loja do escultor.

Com uma frieza assombrosa, fecha os olhos com pesar, vira para um muro de concreto, entra em uma porta que não estava lá e desaparece. Finalmente tinha alguma coisa para pensar.

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~ por jlavelino em 11/03/2011.

Uma resposta to “O escultor”

  1. Esse texto foi incrível, mas no final me bateu um pouco de tristeza. =/ Como alguém que tem coragem para sair da Cidade volta tão pequeno?
    Estou curiosa pra ver a continuação.

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