Despertar

•17/08/2010 • 1 Comentário

“Uma cidade feita de medos…”

Arthur ficara pensando nessa frase durante dias. E eles passavam devagar, dando a entender que o universo, ou seria a Cidade, ou seria o dono daquela voz do sonho. Parecia que era esta a hierarquia que se organizava. E tudo isso viravam linhas de um quadro monstruoso. Os traços fortes. A Cidade crescia na tela como crescia fora dela.

“Uma cidade feita de medos…”

Repetia ele repentinamente. Já faziam horas que estava na saleta, com todas as janelas fechadas. Sua imaginação percorria espaços jamais pensados antes. As coisas se desenhavam como ficção científica. Como se a Cidade tivesse literalmente ganhado vida e dominasse tudo. Ou seria só um momento de loucura. Deveria ser. Ele sabia que havia mais, muito mais que a Cidade no mundo. Ele pensava em Davi, ele deveria estar quase no mar a esse ponto.

Como era belo o mar. Este sim era maior que a Cidade. O mar infinito. O mar de tantas faces e de tantos olhares. Às vezes aquele olhar hipnótico que te chama para o fim, para o fundo, para fazer parte do mar. Às vezes aquele olhar que te faz virar as costas para nunca mais voltar. E de fato Arthur jamais teria voltado. E hoje estava de volta na Cidade. Parece que o mar também é feito de medos. As ondas são pequenas ou grandes de acordo com o medo que temos delas.

Mas quando vamos de encontro às ondas elas vemos que realmente elas não são tão grandes como o medo que temos delas, por maiores que elas sejam.

“Um mar feito de medos…”

Sim! Todos os seus pensamentos foram varridos por aquele mar. Ou aquele medo do mar. Ou aquele medo de nunca mais voltar. Ou aquele medo de se perder pra sempre sem a…

Agora tudo fazia sentido. O mar sabia de tudo! Como ele poderia ir avante sem ter voltado para buscar quem realmente importa?

Arthur se levantou repentinamente de sua banqueta e as tintas que estavam em sua palheta não eram mais suficientes para pintar o que ele pensava. Chega de pintar quadros! Chega de tomar café todas as manhãs olhando aqueles quadros. Chega de abrir uma página aleatória de seu diário a cada dia para que as traças lessem. Chega de esperar outro Davi. Ou o mesmo Davi. Talvez seu messias jamais voltaria e ele estaria preso naquela prisão de lembranças até que sua memória estivesse enterrada em um quadro inacabável. Um quadro feito de medos. Que ninguém jamais veria.

Tudo o que ele pode fazer agora foi arremessar toda sua tinta azul naquele quadro e afogar todo aquele pesadelo naquela tela. Pegou seu casaco mais espesso, pois o frio estava forte lá fora. Pegou sua mochila, pegou a Sra. Margarida pelos braços, deu-lhe um casaco e disse apenas uma frase:

– É hora de irmos!

Andaram rapidamente até a porta da frente e Arthur não acreditava em seus olhos. A Sra. Margarida muito menos. Eles se abraçaram firmemente, olharam firmes nos olhos uns dos outros e se certificaram de que tudo era realidade. Seus corações batiam rápido, e aceleravam cada vez mais. Cada segundo mais. Cada décimo, centésimo, milésimo… E, por um momento tudo parou. Ambos seus pés estavam afundados em uma relva confortável, macia e quente. O sol batia forte no rosto deles e não havia nuvem alguma no céu. Ambos, sem mover o olhar tiraram os casacos e os deixaram cair livremente na relva e sentiram o calor do sol em suas peles já tanto vividas. Os cabelos morenos da Sra. Margarida livremente balançavam com a brisa quente que soprava do norte. Quando os batimentos voltaram ao normal e quando os olhos se acostumaram com a luz viram um campo verde que se extendia por todas as direções. Não havia mais ilusão para eles dois. Arthur tinha medo de olhar para trás e ser puxado de volta para a sala de sua casa e nunca mais ver aquilo novamente. Mas seus medos não foram tão grandes como a vontade de, com o olhar dizer adeus para todo aquele lugar. Ele se virou e a casa estava lá sozinha. Ao fundo, bem distante, era possível ver a Cidade simplesmente acontecendo.

A porta estava aberta e a sala estava escura. Todos os seus quadros estavam lá, esperando, em vão, que Arthur desistisse de deixá-los. Mas era tarde demais. A idéia de que era a hora de partir já tinha se alastrado por cada um de seus neurônios e era impossível voltar atrás. Mas seu olhos custavam a deixar aquele cenário tão familiar. Permaneciam imóveis, esperando que tudo sumisse por si. Ou que esse ambiente o abraçasse levando-o de volta para ‘casa’.

Eram apenas medos Arthur, apenas medos…

Com passos curtos, emergiu da sombra uma figura alta, vestindo um terno preto bastante elegante, com sapatos igualmente pretos, brilhantes. Seu cabelo era negro, curto jogado para o lado, bastante liso. O rosto limpo sem barba nem bigode. Seus olhos eram estreitos, castanhos, tangidos por uma sobrancelha bem delineada. Mas seu rosto não parecia sério. Pelo contrário. Olhava Arthur como se fossem velhos amigos.

– Para que olhar tanto? Ou será que você não entendeu o que é tudo isso. Ou quem eu sou?

Brotaram do solo uma pequena mesa de praça, com duas cadeiras de metal. Na mesa, uma xícara apareceu, repleta com um capuccino que exalava um cheiro maravilhoso. Os dois se sentram e no momento tudo em volta parou. Os sons, os movimentos, animais. Até a brisa quente que vinha do norte cessara. E Arthur simplesmente ficou abismado com tudo aquilo. Com a maneira que ele havia chegado lá e feito tudo isso. Será que ele seria…

Não Arthur, eu não sou Deus. Nem perto disso. Pode me chamar de Arquiteto. Sou tão mortal como você, mas as semelhanças acabam por aí.

A voz definitivamente era conhecida. Mas o espanto impedia Arthur de progredir em qualquer linha de pensamento ou de raciocínio. Estava atento apenas naquela ‘pessoa’ sentada à sua frente, tomando lentamente o capuccino.

– Você realmente entendeu o que você ouviu no terraço naquela noite. A cidade é feita de medos, mas é tão sólida quanto os seus medos. Ela é tão real quanto os seus medos. Ela é imperfeita como os medos de qualquer um de nós. Eu a criei a partir dos meus próprios medos. Todas elas são assim. Mas esta nossa em particular. Minha. Esta sim foi uma obra prima. Mas saiu de controle e meus medos já não mais eram suficientes. E ela começou a se apropriar dos medos de todos. Foi crescendo cada vez mais até ficar virtualmente infinita.  Tudo o que foi construído em pedra morta pelo homem é ridículamente pequeno ao do que eu construí com simples pensamentos e idéias.

E então deu o gole derradeiro na sua xícara e levantou-se da mesa, chamando Arthur com ele para dar uma volta. Andaram um pouco e olharam a cidade ao longe. Inerte. Arthur percebia o olhar do Arquiteto umedecer. Não era apenas tristeza, mas, talvez, um pouco de saudade dos dias áureos de sua criação. Ele hoje era um monstro e restava-lhe apenas uma alternativa. Dar pistas. Uma a uma. Para uma pessoa de cada vez. Talvez um dia os medos a alimentá-la não sejam mais tantos.

Só queria dizer uma última coisa. Seu último quadro é fantástico. Deixarei-o lá. Como deixarei a casa lá. Agora vai que o Mar te espera. Ele é uma criação maior que eu. Talvez até seja Deus que tenha o feito por sí mesmo. Infinito.

Com seus passos largos, característicos seus, o Arquiteto voltou para a velha casa de Arthur e, sem hesitar, cruzou o vão da porta de entrada e fechou lentamente a porta. Quando ouviu-se a chave dar a primeira volta no lado de dentro, Arthur sentiu uma brisa quente em seus cabelos. Margarida andou ao seu encontro e os dois se olharam tentando acontecer o que teria acontecido. Olharam para a casa novamente mas ela não mais estava lá. Havia voltado para seu lugar. Não era mais sua, nem de seus medos. Deram as costas para tudo aquilo e seguiram em frente. Havia apenas uma elevação a frente. Um grande morro com uma frondosa árvore ao fundo. Suas folhar voavam com a brisa que vinha do norte e se espalhavam pela relva. Tudo era convidativo.

Andaram por algum tempo até chegar a uma distância suficiente para perceber que havia uma pessoa sentada aos pés da árvore. Usava um chapéu que cobria seu rosto pois, aparentemente, ele dormia profundamente já há um bom tempo. Quando estavam há uns quinze metros da árvore, a pessoa se levantou. Ainda com a cabeça baixa. Ainda era irreconhecível por causa da sombra. Mas ela ia andando na direção deles. O Sol estava cada vez mais forte por trás dela e a sua sombra formava um facho de penumbra à sua frente. Sem dar pista alguma de quem poderia ser, apenas chamou os dois para irem à sua direção.

Arthur e Margarida o seguiram lentamente e, ao,passar das raízes da grande árvore, seus olhos foram banhados um uma quantidade imensa de luz e, logo após, de azul. O Mar estava lá. Diante dos seus olhos incrédulos. Margarida nunca havia visto nada como aquilo e Arthur jamais sentiu-se tão chamado por seu olhar. Agora sim estava pronto para ir.

Já recomposto da grandiosidade do encontro inesperado com o Mar,  Arthur olhou para o lado e não havia mais ninguém. A pessoa já havia tomado seu caminho falésia abaixo, em uma pequena escada de madeira, que acompanhava sua encosta. Não havia mais para onde ir, então o casal seguiu seus passos.

A escada terminava em um pequeno trapiche que levava mar adentro.Próximo pedra havia uma pequena porção de praia ainda, uma vegetação rala nas partes mais secas e, em uma pequena gruta encravada na rocha havia uma pequena capela, com algumas fotos de mulheres, crianças, senhores e senhoras. No outro extremo do trapiche se encontrava um barco pequeno com velas brancas esvoaçantes, como se fossem materialização do próprio vento. A pessoa da árvore já estava dentro do barco esperando por eles dois. Mas havia uma coisa a ser feita antes de irem algo que daria sentido a tudo isso.

Arthur colocou sua mão no seu bolso direito e, do fundo, tirou um pequeno anel. Era de ouro, com uma pequena pedra avermelhada em um ponto. Estava escrito Margarida em letras bastante trabalhadas na parte interior do corpo do anel.

Acho que já se passaram quase 60 anos daquele dia. Mas não acho que mudei de idéia. Há muitos, muitos anos atrás ja estive aqui, na beira do Mar. E voltei. Voltei para a Cidade. Voltei para o lugar sujeito aos mais sutis caprichos dos meus próprios medos. Voltei pra te buscar. Só pra te buscar. Desde que nos encontramos novamente, naquele dia que teimava em não terminar, eu comecei a te mostrar o caminho que eu havia andado. E você se maravilhava em ver cada novidade. Eu era feliz te mostrando tudo aquilo. Mas agora é a hora de irmos para lugares onde nenhum de nós jamais foi. Vamos partir para uma viagem inédita. Escrever novos diários. E nunca, jamais voltar para aquilo que eram apenas medos.

Margarida sem hesitar, confirmando tudo isso, ergueu sua mão esquerda e vistiu o anel. E então após um longo olhar sem pensar, caminharam lentamente em direção à água. O vento norte trazia respingos que os refrescavam, aliviando a sensação de calor sob aquele Sol forte que brilhava sobre suas cabeças. Ao chegarem ao barco, uma jovem menina os recebeu. Era a pessoa que estava os guiando até aqui. Era jovem, de uns catorze ou quinze anos. Sem dizer uma simples palavra, ela deu as costas e entrou na cabine do barco. E, antes que eles pudessem pensar em embarcar, ouviram passos pesados vindos da cabine.

Logo a menina subiu a pequena escada de volta. Seguida de uma pequena criança, um menino, aparentemente com seus oito, dez anos vividos. Após subiu uma mulher. Alta, com olhos penetrantes. Provavelmente a mãe das duas. Os três olharam para o casal de convidados e, em seguida para a porta da cabine, de onde se ouviram mais passos. Estes leves e tranquilos. Passos de uma pessoa que já se acostumou a andar para viver e viver para andar. Passos despreocupados. Usava o chapéu que a primeira menina usava em seu encontro, lá no alto da falésia, diante da árvore. Suas roupas eram simples. Chinelos nos pés, uma simples calça clara acima. Uma camisa polo, com seus botões abertos pelo calor. E ao chegar no rosto…

Bem vindo a bordo, Arthur!

O rosto de Davi brilhava. Tantos anos haviam se passado para ele, mas ainda era impossível dissociar da imagen singela daquele jovem entregador de cartas tempos atrás.

-Vamos Arthur! Para as águas mais profundas. Não vamos para a direção do pôr do sol. Temos ainda muito tempo para navegar.

E logo o vento deu os primeiros impulsos no barco, que seguiu para longe das felésias em direção de algo que nenhum deles jámais havia visto antes. Nem ao menos imaginado.

De fato a antiga casa de Arthur voltara a seu antigo lugar. Estava lá, encrustrada entre aqueles dois grandes edifícios. Sua porta estava aberta. Sempre aberta. E sempre. Sempre estava lá, sentado nas banquetas da saleta, admirando a tela estendida no cavalete, o Arquiteto. Em suas mão, o antigo diário de viagens. Ele o lia atentamente, palavra por palavra, admirado com a beleza das pequenas criações. A cada página lida um pensamento lhe ocorria inplacavelmente: “Como seria maravilhoso ler o novo diário…”

Discursos

•08/08/2010 • 1 Comentário

” Os muros da cidade são feitos com muito mais do que tijolos… São construídos com os medos de cada uma das pessoas que vivem aqui. São feitos de sonhos também. E não só de sonhos bons. Ela não é assim apenas por ser e nem podemos dizer se ela é assim mesmo. Olha para baixo e vê as pessoas andando nas calçadas daquela avenida. Agora lembra daquele que se foi. E pensa agora como quem voltou. Ela nunca é a mesma.

A luneta sempre está a disposição para quem quiser. As respostas são sempre gratuitas para quem as quer. Mas quem não as quer paga sempre um preço muito maior. Quem apenas infla o seu ego com sensações simplórias como controle, poder, domínio, não vai ser capaz de ver nada além dos seus domínios. E pode acreditar, ninguém me domina, e muito menos, ninguém domina a cidade.

Estou sempre livre. Livre para agir. E possuo meios nada convencionais de dizer as coisas. Tudo poderia ser mais fácil, mas o sabor da descoberta e a surpresa com a primeira vista, que você sabe que é a melhor de todas, não pode ser tão depreciado a ponto de qualquer um poder sentir. O preço seria muito caro.

Todos aqui foram amaldiçoados por nascer na Cidade. Por viver seus anos servindo a Cidade. Mas são abençoados por ter a chance de fazer a maior das descobertas das suas vidas. Imagine como deve ser Deus. Ser onisciente. E perder a chance da descoberta. Esta é a graça maior do homem, é o maior dom. A mente é capaz de descobrir coisas novas infinitamente. Tudo o que você vê à sua volta é fruto da mente humana. É fruto do que pensamos e do que descobrimos. Tudo é intimamente ligado à mente.

E, sim. A Cidade é infinita. Pode acreditar em cada palavra que foi dita. Mas como se consegue andar até o fim de um lugar infinito?

Você já fez isso, Arthur. O jovem Davi acabou de faze-lo novamente.

Muito mais do que simples tijolos. Pense bem nisso. A viagem de volta do elevador é longa. Você tem muito tempo tal…

Nos encontramos aqui amanhã a noite? “

E realmente o caminho era muito longo. Sempre longo o suficiente para se pensar em qualquer resposta, desde que você queira chegar a ela. Se não, nada do que dois minutos não resolvam. Mas cada minuto a mais era precioso

Fragmentos #1 – O topo do mundo.

•02/08/2010 • 1 Comentário

A noite era comprida. Arthur estava sentado imóvel olhando fixamente o quadro que teimava em se fazer inacabado. Sua cabeça já estava cheia destes sonhos loucos e, logo ao sair do elevador, ele acordara.  As noites estavam se tornando uma ladainha que teimava em se repetir incessantemente.

O seu quadro se desenhava a cada noite mais um pouco e nada parecia fazer sentido. Ele teimava em não acreditar nas teorias malucas em que criava ao ver sua obra. E esperava que, em uma noite, finalmente, algum traço desenhado daria sentido para todos os outros e que tudo seria revelado.

Cansado de olhar fixamente para a tela, Arthur foi à cozinha preparar uma xícara de chá silvestre – era o seu favorito – e sentar confortavelmente em sua poltrona na sala de estar e, envolvido na simples apreciação do chá, esperar que estes pensamentos deixem sua cabeça para que ele possa ir dormir novamente.

Era essa a ladainha de todas as noites.

Sentado na poltrona, com uma mão no pires e a outra na xícara, Arthur se detém em um detalhe que passara desapercebido todas as noites anteriores. Logo à sua frente, aberto sobre uma pequena toalha de bordado de lã de tons azulados, o seu diário de viagens. Ele o mantinha sempre aberto, tal como uma bíblia em uma casa de um fiel fervoroso, esperando que um dia ele tenha algo a lhe dizer.

Ao deixar de lado a xícara já vazia e folhear as páginas já amareladas do diário, as memórias invadiram sua mente implacavelmente, sem dar chance alguma aos sonhos. Eles eram pequenos respiros diante a força das experiências contadas alí. A liberdade era plena. A vida ganhava sentido a cada passo dos anos de caminhada, andando por lugares inimagináveis e sempre com consciencia de que tudo aquilo jamais poderia ser tudo. Por um momento aquela consciencia tomava traços de uma certeza absoluta, de uma verdade irrefutável. Foi um momento glorioso. E tudo estava anotado nas páginas amareladas. Ao ver o título das anotações, teve certeza de que aquele momento foi tudo aquilo que a memória o mostrava e muito mais.

“O Dia Em Que O Mundo Coube Nos Meus Olhos

É impossível que você, que lê estas páginas, irá perceber a dimensão do que é isto aqui. A não ser que você seja eu. Tudo ganhou sentido. O que era apenas um sentimento se tornou verdade. Verdade sólida como esta pedra em que estou sentado. À proposito, estou sentado em uma pequena pedra escura, em meio a tanta neve, no cume do monte mais alto do mundo. Foram 3 dias e meio de caminhada até aqui mas a visão compensa cada gota derramada de suor.

Daqui é possível ver tudo, cada passo que dei até chegar até aqui. Voltando montanha abaixo, passando pelos vilarejos, pelos campos, florestas, cidadelas, cruzando os rios, os vales que eles formavam, até chegar lá. Ali estava ela. Eu ainda a via imponente, absoluta. Mas, pela primeira vez, eu a vi finita. Todo o seu desenho era até obvio olhando daqui de cima. Era apenas um borrão marrom, mas eu conseguia vê-lo pulsando com toda a ‘vida’ que acontece alí. Ela acabava. Era inacreditável, mas ela acabava mesmo! E era incrivelmente pequena diante de tudo o que eu consigui ver daqui, o que é praticamente tudo o que a curvatura do planeta me permitiu.

E como é belo tudo isso! Está sendo ainda, na verdade. A liberdade é maravilhosa! Todas as minhas antigas certezas e ambições vieram abaixo. E eis que se faziam novas todas as coisas. Tudo o que eu acreditava ser o mundo e o universo se tornou tão pequeno. Tudo o que eu acreditava ser tão absoluto, tão opressor, tornou-se tão frágil.

Como a Cidade. Nada mais é como antigamente.”

Momento twitter…

•27/07/2010 • Deixe um comentário

Meu Deus! Como é bom trabalhar, escrever, ler, stuff like that, ouvindo Frank Sinatra!

“Admirável Mundo Novo” – Impressões do Infinito

•26/07/2010 • 1 Comentário

Caro amigo, Arthur.

Que maravilha é poder te escrever de um lugar tão espetacular! Tenho visto tantas coisas nos últimos 2 meses que vou ter que me conter para não enviar-te um  calhamaço muito volumoso! Quando voltar, você poderá ler com mais detalhes, o que tenho escrito nas páginas do diário de viagem…

Mesmo tendo visto tão atentamente cada um de seus quadros, lido trechos do seu diário e, principalmente, ouvido tantas histórias em méio a demorados cafés-da-tarde, eu jamais imaginaria como é o infinito. Existem tantas cores jamais vistas, principalmente no céu. Já me acostumei com o céu azul turquesa daqui do vilarejo.

Fui muito bem acolhido por aqui, e tem sido minha primeira estada mais longa depois de tantos meses de andança. É bom estar em um lugar em que é possível conhecer todas as pessoas à sua volta. Não existe aquele frenesi no horário de pico. Toda manhã, um céu bem menos laranja ilumina suavimente as pequenas casas de madeira, que se estendem pela encosta da montanha. Consegui me hospedar na casa de um velho senhor, que não exitou em me acolher em sua casa e vive contando histórias de um homem que há muitos anos atrás havia conhecido o senhor e guarda uma pequena fotografia dos dois num porta retrato antigo de bronze sobre a mesa de canto de sua sala de jantar.

Foi um prazer inigualável poder do alto da cordilheira do norte, naquele mesmo mirante dos teus quadros, ver a Cidade vivendo por sí própria. Seus prédios imensos se ergendo da névoa das indústrias, com seus jardins suspensos ao vento. É estranho pensar que tanta gente vive a sua vida inteira e jamais tem noção de que existe tudo isso. Toda essa imensidão de mundo. Me imaginei vivendo a minha velha vidinha medíocre de exatos 4 meses atrás, antes daquela fatídica primeira xícara de café. Iria acordar e ver aquele mesmo céu cinza chumbo de todas as manhãs, ir para o trabalho, pegaria meu fardo de cartas e revistas para entregar e ficaria o dia inteiro pelas ruas da cidade entregando-nas.

Mas hoje a vida é completamente diferente. Ontem fiz algo que seria inimaginável tempos atrás. Comprei um cavalo! Ele vai comigo durante as minhas viagens. Espero que a jornada continue me surpeendendo cada vez com as paisagens, com os vilarejos. Conhecendo cada vez mais pessoas ao longo da estrada. Espero receber cartas ‘estranhas’ como a que entreguei ao senhor aquele dia.

Mas agora me vou. Amanhã eu parto daqui. Ficarei com saudades, mas há tanto para se ver e descobrir que não poderia ficar mais aqui. Há um jantar me esperando lá na taverna (Sim! Aqui ainda existe aquela antiga taverna!)!

Um grande abraço, caro amigo!

Davi.”

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“Isn’t the world  full of wonderful things? I have lost so many things, my job, my future, everything people THINK is important. But I don’t care! Cos, if I have to dig dithces for the rest of my life, I shall be a ditch digger who once had a wonderful day!” Cornelius Hackl

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Os olhos do rei

•26/07/2010 • 1 Comentário

Aquele sonhos continuava a assombrá-lo noite após noite, pelos últimos 12 dias. Sonhos em que ele encarnava um  jovem, há muitos anos atrás. Não havia como ele se lembrar dessas coisas, se, de fato, elas tivessem realmente acontecido. Mas toda noite essas imagens voltavam à tona e ficavam lá, para serem entendidas, durante toda a noite:

– – –

Ele sentia o chão pressioná-lo sob seus pés. A velocidade crescia, assim como a contagem no pequeno visor de vidro. O tempo parecia passar mais devagar enquanto o elevador o levava cento e vinte e cinco andares acima. Tremendo.

O corredor seguia adiante. Passo a passo, ele deixava o medo um pouco mais escondido em suas entranhas. Queria ao menos ter uma leve visão antes de que o medo corresse pelo corpo e o levasse de volta para o elevador, implorando que ele o levasse para baixo do solo. As paredes do prédio antigo eram revestidas de granito, com quadros de paisagens, fotos em preto e branco de pessoas que hoje já não importam mais. Candelabros de cristais pendem do teto branco margeado por grandes e rebuscadas sancas de gesso. O chão de madeira escura e polida refletia tudo isso e a porta clara mais adiante. Engolindo todos os seus medos, sentindo sua pele fria como o granito das paredes, ele abre a porta para o exterior.

Uma golfada de ar quente infla de vida seus pulmões e abre os seus olhos. E em um segundo a Cidade está em suas mãos. Os pequenos prédios se estendiam até o infinito. Seu corpo era puxado adiante, como se todo o medo desaparecesse de seu corpo imediatamente. Nada escapava ao olhar. Os carros passavam na movimentada avenida centenas de metros abaixo. Uma criança jogava bola com os pais no topo de um dos prédios ao redor.

Assim a Cidade sumia do horizonte. Com seus prédios formando um formigueiro que teimava em não acabar. Nem as tão faladas fábricas, que cercavam a Cidade, apareciam ao olho nu. Dali ele podia ver tudo e todos, ele podia controlar, ele podia estar a par de tudo, tal qual um rei, vestindo, orgulhoso, sua coroa, observa seu reino. Seu ‘reino’ era tudo aquilo que seus olhos podiam ver.

Mas de repente seus olhos se voltaram para um pequeno detalhe. Mísero detalhe, ante a grandiosidade do cenário que se punha ao fundo. Uma pequena luneta de metal, com seu corpo revestido com uma madeira escura. Haviam pequenos desenhos entalhados na madeira, pequenos demais para serem vistos sem que se tomasse um pouco de tempo e dedicação.

Sem pensar nos detalhes, ele agarrou com ambas as mãos o instrumento e colocou em seus olhos. Queria ver mais, controlar mais, ‘reinar’ mais.

Com o tempo, ele foi ajustando o foco do aparelho. Era uma luneta poderosíssima. Era possível se ver os pequenos detalhes de cada pequeno prédio. Os rostos das pessoas andando nas ruas e ler seus lábios com precisão. Era possível ver as folhas dos pequenos arbustos dos canteiros centrais e as feições dos pequenos pombos brancos pousados no calçadão.

Mas apreciar cada detalhe da imensidão não era sua intenção. Logo que ele dominou o funcionamento do foco da luneta, ele subiu a visada para o horizonte. Queria expandir seus ‘territórios’.  Procurou adiante e o que parecia ser possível aconteceu.

Por sobre a fumaça das indústrias e das usinas um borrão verde aparecia. Algo que nem sua poderosa luneta poderia focalizar. Seria o este o fim da Cidade, o fim do mundo? Se assim o fosse, ele era ‘rei’ do mundo inteiro! Aquele borrão verde simbolizava a eternidade de seus domínios.

Satisfeita a sua sede de poder, ele retirou a luneta dos olhos e a deixou no lugar onde estava. Ele a olhava fixamente. Queria ela só para ele. Não admitia que ninguém tivesse o mesmo domínio que ele. ELE era o ‘rei’ de toda a Cidade.Sem pensar duas vezes ele estendeu a mão em direção à luneta. Tudo que havia dentro de sua alma o impelia a roubá-la. Era um desejo que consumia toda a razão.

Como um gatuno, em um movimento rápido e seco ele agarrou novamente a luneta e a colocou no bolso interno de seu casaco e, curvando-se para frente, saiu furtivamente do terraço, desceu o elevador e rapidamente voltou para casa.

Dormiu bem aquela noite. Seus sonhos eram movidos à ambição e poder. O mundo estava sob seus pés até os primeiros raios de Sol da manhã seguinte atingirem seu rosto. Era um novo dia. Um novo dia para apreciar seu ‘reino’ em toda sua majestade. Mesmo sem tomar seu usual café-da-manhã, ele saiu para a rua, indo novamente em direção ao grande edifício. Seu rosto era confiante, enquanto, em sua mão direita, empunhava, como um cetro real, a sua preciosa luneta. Sua ‘coroa’. Chegou ao prédio, exatamente como no dia anterior e pegou o elevador. A viagem não foi tão longa quanto antes. Suas ambições já haviam afogado seus medos.

Rapidamente andou em direção à sacada e, com pressa, sacou a luneta e, em uma fração de segundo, sua alma desmoronou impiedosamente. As lentes estavam leitosas e não era possível enxergar um palmo adiante. A Cidade havia voltado a ser infinita novamente. Sua coroa havia perdido o brilho e virara sucata, assim como sua alma.

Nada mais importava, nada mais valia a pena. Os medos acumulados voltaram à tona e, como uma onda de dilúvio, o tomaram completamente. Suas pernas cederam e, com uma extrema dificuldade, ele andou porta adentro e desceu os elevadores. Saiu do edifício olhando para o chão, pois a mera imagem dos edifícios altíssimos ao redor já traziam a sensação de vertigem. Seu ‘reino’ era apenas o seu próximo passo.

Rapidamente ele voltou para seu apartamento. Indo diretamente para cama e ligando a televisão. Ali ele ficaria, até acordar plenamente – ou até ele se distrair com mais alguma coisa…

– – –

E eis que os primeiros raios de sol atingiam seu rosto e ele despertava desses sonhos loucos. Olhava para o lado e via Margarida dormindo tranquila como se nada a afetasse. Com um salto, Arthur se levantava, colocava seu roupão azul claro e caminhava até a saleta onde haviam os cavaletes e dava mais algumas pinceladas em seu quadro, que teimava em não se acabar. O dia passaria devagar, mas ele esperava ansiosamente a noite, esperava por aquele sonho. Talvez hoje faça sentido. Talvez não.

Quadros

•21/07/2010 • 2 Comentários

Os primeiros passos casa adentro  foram lentos, curiosos, com um pouco mais de expectativa que ela  esperava. O hall de entrada estava escuro e o facho de luz que penetrava através da porta apenas para evidenciar um pouco da silhueta do ambiente, e dar uma leve idéia de suas dimensões. Havia um vão de porta no lado oposto, além dele se abria o resto da casa. Era possível ter noção desses espaços que surgiam na penumbra, mas sua forma ainda era um mistério. A parte iluminada do chão se mostrava revestida de uma madeira bastante escura, que dava uma sobriedade muito maior para aquele ambiente escuro.

Assim a Sra. Margarida começou a, por frações de segundo, se apropriar do espaço do pequeno hall de entrada. Seu olhar percorria todos os cantos do seu campo visual, tentando achar algum detalhe possível de ser visto, um detalhe que daria alguma pista do caráter do lugar em que ela estava entrando.

Ela imaginara esse lugar por tanto tempo. Perguntava-se como teria vivido Arthur todos estes anos, pensando, talvez, que ele tenha passado todos estes anos enfurnados nessa pequena casa, não tendo noção de como havia se tornado o mundo lá fora. Mas alguma coisa lá no fundo de sua menta, alguma lembrança escondida no bem no fundo do seu subconsciente, dizia a ela que isso não poderia ser verdade e que ele tinha feito algo mais… Algo fora da sua compreensão.

E como se essa fração de segundo terminasse num relance, as mãos de Arthur alcançaram o interruptor, banhando cada canto do ambiente com uma luz quente, amarelada.

Depois de um breve momento se acostumando com a luz, os olhos da Sra. Margarida se depararam com algo que ela jamais vai esquecer: As paredes cobertas de incontáveis quadros, com cores das mais variadas, formando um mosaico de paisagens indescritível à primeira visada.  As cômodas, mesas de centro, de canto, de jantar, o piano,  toda e qualquer superfície horizontal estavam forradas de porta-retratos, com lindas fotos, produzidas pela antiga câmera fotográfica de seu antigo sogro. Em cima de uma prateleira alta, sobre o piano, estava, entre dois porta-retratos, disposta a dita câmera. Sua grande lente refletia as paredes opostas da sala e o teto, com uma charmosa curvatura, enquadrado tudo em uma perspectiva arredondada bastante curiosa. O estojo das lentes sobressalentes estava logo atrás.

Mais ao fundo estava a pequena saleta, onde haviam três cavaletes, dois deles vazios, e o do meio apoiava uma grande tela, o que a espantou, pois veio à sua mente o fato de que todos aqueles quadros haviam sido pintados lá mesmo.  “Quanta imaginação!” – pensou ela, mas ainda com aquelas memórias profundas teimando a querer aparecer, mas ainda suprimidas pela perplexidade ante a tanta informação nova.

Ela andava lentamente próxima às paredes, admirando cada obra com atenção. Indo inconscientemente em direção à pequena saleta, impelida pela curiosidade, intrigada quanto ao conteúdo do próximo quadro que Arthur pintaria.  Seria mais um bosque verdejante, rodeados de montanhas com neve no cume, talvez com algum animal silvestre passando pelo enquadramento. Ou mesmo uma pequena aldeia. Ele a deixava circular livremente pela casa. Essa era a real intenção de levá-la até lá. Ela estava finalmente abrindo seus olhos, abrindo a sua mente. ‘Acordando’, como ele costuma chamar este fenômeno.

Depois de alguns segundos fitando os cavaletes ‘pelas costas’, ela começa, com passos lentos e curiosos, como aqueles dados ao entrar no pequeno hall de entrada. Tentava não olhar para o conteúdo da tela até estar de frente para ela e poder ver seu conteúdo inteiro. Queria se surpreender novamente – estava gostando da sensação. Ao chegar de frente do cavalete e da tela, piscou demoradamente os olhos, abaixou a cabeça, e, ao abrir os olhos, sentiu um misto de surpresa, dúvida, inquietação, medo.

O quadro era em todo formado por traços despretensiosos. Não era como os outros, providos de uma técnica refinada. Este possuía traços fortes, quase rabiscos. Formavam uma linha de terra, que cruzava horizontalmente o meio da tela. Não havia um preenchimento contínuo dessas grandes massas formadas pela linha, mas alguns borrões acinzentados, marrons bem claros, com um pequeno toque de um azul chumbo. Dessa linha surgia uma silhueta de uma grande cidade. Nas bordas ela era nebulosa, não havia formas muito definidas e, à medida que chegavam à área central, as formas iam se destacando umas das outras, compondo vários prédios. A cidade ia até os limites da tela, mas era clara a intenção de que ela facilmente se estenderia infinitamente, além dos limites da tela, onde só a ‘imaginação’ das pessoas observariam.

Abaixo da terra, das bases dos prédios, saíam grandes raízes, formando uma espécie de rede neuronal, um espesso emaranhado de terminações nervosas, com seus neurônios trabalhando incessantemente. Tudo se conectava, tudo era ligado em um prédio na região central, o mais alto de todos. Como o olho que tudo vê, controlava cada canto da cidade com pulso firme.

No fundo , relógios gigantes apareciam, estes com linhas bem técnicas e esbeltas, como um desenho técnico, grandes engrenagens, com pêndulos, todos denotando incessante movimento. Os grandes relógios todos marcavam 6:30. O conjunto desse sistema formava um circulo perfeito. Que formava como que uma redoma envolvendo a cidade e uma redoma inversa, envolvendo aquele ‘centro nervoso’ como se tudo fosse uma coisa só.

A Sra. Margarida olhava atônita cada um desses detalhes, com uma mistura de sensações, todas elas temperadas com uma generosa dose de medo. Depois de um minuto apenas tentando assimilar tantos sinais, ela vira seu rosto assustado para Arthur, que a olhava do outro extremo da sala. Depois de se olharem por um breve instante, ela toma a frente:

O que significa tudo isso, Arthur?

Arthur, mudo, olhava para ela com um rosto sério de quem está sem palavras. Abaixa um pouco a vista e, depois de uma breve reflexão, olha nos olhos dela:

– Eu ainda não sei dizer. Não sei mesmo…

 
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